ACEITAÇÃO: Encontro

ACEITAÇÃO será a próxima história de O MAL HUMANO, dedicado à apresentação do Inspector Hélder Rocha, mas não é só. Além de contar com a presença de vários dos personagens retratados em histórias anteriores, introduz também (de forma breve) o protagonista de uma outra série, de um outro autor que não eu. Espero que gostes.

MH-BHZ (4)

À saída do cemitério, Hélder sentiu uma mão no seu ombro e virou-se para trás. As feições não lhe diziam nada, mas os olhos pareciam falar o mesmo que ele sentia: dor.

O desconhecido, que não devia ser assim tão desconhecido, pois estava de mão estendida para o cumprimentar, disse: “Olá, professor.”

Na mente de Hélder surgiu um nome, mas não um rosto. Tinha péssima memória para rostos. “Mário, certo?”

“Marco”, corrigiu o já não tanto desconhecido.

“Estou a reconhecê-lo de algum lado”, disse, ainda que não fosse verdade, “mas não me lembro de onde.”

“Fui seu aluno durante um semestre. Eu e a minha…”

Marco baixou a cabeça e calou-se. Parecia incapaz de continuar. Hélder resolveu aproveitar para pôr fim à conversa. Não lhe apetecia conversar com ninguém, sobretudo com alguém de quem mal sabia o nome.

“Meu caro, peço desculpa, mas tenho de ir. Havemos de nos…”

Marco, deslocado para um mundo só seu, regressou naquele momento para dizer: “Lamento pelo seu colega.”

“Obrigado. Ele era mais do que um colega, era um amigo. Conhecia-o também?”

“A minha… a minha mulher sim. Ele estava a ajudá-la na sua tese de mestrado.”

Marco desviou o olhar para uma comitiva fúnebre à distância.

“Os pais dela nunca foram muito com a minha cara. Agora dou-lhes razão para isso.”

Hélder tinha partido do princípio que Marco estava ali para assistir ao funeral de Simões (não era o único estudante ali presente) — agora percebia que não era esse o caso. Embora afastados da vida docente, Hélder e Ascânio continuavam as suas investigações académicas, publicando o ocasional artigo científico em revistas de antropologia e de psicologia. Nos últimos meses, Simões começara a dar consultas a uma ex-aluna, a propósito do tema para a sua tese de mestrado.

Ela tinha sido uma das vítimas resultantes do acidente. O seu namorado, o único sobrevivente da tragédia, estava perante ele. Observando-o com atenção, Hélder notou: os olhos vermelhos das lágrimas, as marcas da falta de descanso, a expressão de culpa de quando não se é capaz de salvar o mundo.

Era quase como olhar no espelho.

“Os meus sinceros pêsames”, disse para Marco.

Marco olhou para ele, como um aluno olhava para o seu professor, em busca de respostas. Infelizmente, não havia respostas, apenas a inevitável aceitação de que certas coisas são como são.

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