O Mal Humano: APREENSÃO (Destaques #4 e #5)

aprens-twt6Curiosidade sobre a minha vida pessoal que poderá não ter qualquer interesse para ti: ontem acordei perto das 11h30. Como tal, foi-me completamente impossível preparar o excerto de ontem. Para atenuar essa falha, hoje há dose dupla.

No primeiro excerto, Fernando e Dinis discutem os motivos do encerramento do caso que estavam a investigar e as implicações internas e externas dessa situação. Apesar de ambos concordarem com o que aconteceu, o modo como cada um exprime a sua desilusão perante isso é bem diferente. Nesta cena são referidos nomes que virão a fazer parte da equipa, e há também Green Sands.

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“Não posso crer que eles mandaram mesmo encerrar o caso”, queixou-se o Dinis.

“Tecnicamente foi arquivado”, disse eu.

Era tudo uma questão de semântica e ele sabia disso tão bem como eu. “Encerrar, suspender, arquivar, é tudo a mesma merda. Se fosse um Zé Ninguém qualquer tinha ido logo parar com os costados à choldra. É o que dá ter amigos nos sítios certos.”

Não podia concordar mais com ele.

Estávamos numa esplanada com vista para o rio. O São Jorge cruzava o Tejo em direcção à capital. Não muito longe de nós, algumas crianças brincavam no esqueleto do velho avião, sob o olhar atento das suas mães.

“Lembras-te quando o André era assim pequeno?”

Acenei. Não tinha sido assim há tanto tempo.

“Como é que eu posso esperar protegê-los, se não sou capaz de fazer o meu trabalho como deve ser?”

Não sabia o que havia de lhe dizer, por isso tentei mudar de assunto.

“Precisamos de mais gente na Brigada.”

“Para quê? Se depois não podemos investigar os casos como é suposto, de que é que serve?”

“Foi um caso, pá!”

“É o suficiente.” Tomou um golo do seu Green Sands. “Começo a achar que isto foi uma má ideia.”

“Queres desistir ao primeiro obstáculo que encontramos? Depois de todo o trabalho que tivemos para pôr isto a funcionar? Depois de tudo o que já conseguimos?”

O Dinis atirou a beata do cigarro para a estrada. Não aprovei o gesto, mas não disse nada.

“Sei lá. Talvez esteja a falar de cabeça quente.”

“Óptimo. Como eu dizia há pouco, precisamos de mais gente.”

“Não desistes, pois não?”

“Fiz uma pequena lista de possíveis candidatos.” Tirei um bloco de notas do bolso. “O primeiro chama-se Hélder…”



 

Neste segundo excerto assistimos ao reencontro de Fernando e Dinis meses após o desaparecimento deste último. Fernando percebe que muita coisa mudou desde a última vez que tinham estado juntos, mas está longe de imaginar até que ponto.

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A estrada na Serra não tinha intersecções para o interior rochoso ou para o abismo profundo, por isso não tardou muito para que avistasse as luzes azuis e vermelhas cintilando por entre a chuva.

Apesar da distância, conseguira alcançá-los com alguma facilidade. Demasiada facilidade, diria até. Era como se tivessem atrasado de propósito. Recusei essa hipótese de tão rebuscada que era. Provavelmente não estavam habituados a conduzir naquelas condições e iam em modo caracol.

Reduzi para os mínimos e liguei as escovas no máximo. Estava mais perto do que havia estado durante toda a viagem, mas confiava que a forte tormenta que caía me escudasse de ser visto.

Continuámos sem novidades a registar por mais alguns quilómetros. Devíamos estar em viagem há mais de meia hora.

Estaria o meu palpite errado?

O carro-patrulha fez pisca para a direita e foi engolido pela Serra. Continuei até ao ponto do desaparecimento e percebi que havia ali um caminho. Vinte metros à frente estava uma pequena casa.

O carro-patrulha parou a poucos metros da porta, os dois agentes saíram e dirigiram-se até lá. Continuei a marcha. Era difícil não me verem. E mesmo que vissem, não fazia diferença. O mal já estava feito.

Mas não me viram. Nenhum deles olhou para trás e eu pude avançar quase até ao carro-patrulha.

Foi então que ele abriu a porta. Ele, o Dinis. Tinha um ar tão lastimável quanto inquietante: barba por fazer, cabelo desgrenhado e o olhar de um homem perdido — um homem assombrado e assustado por algo que reduzira a sua aura de confiança a uma amostra frágil do que era antes.

Não conseguia perceber o que lhe tinha acontecido, mas sabia que aqueles dois polícias a baterem-lhe à porta a meio da noite não justificavam o terror que vivia no seu olhar.

Encostei o carro, saí e avancei em direcção ao trio.

Não sabia se era da chuva, do cansaço, do intenso turbilhão de emoções que fazia com que aquela tormenta parecesse insignificante mas, a cada passo que dava, parecia que a postura do Dinis se alterava de uma maneira difícil de explicar.

Parados à chuva, o único som que ali se ouvia era a água que caía. Quando as vozes ganharam alguma nitidez, o inesperado aconteceu e o Dinis viu-me.

A parte de ser visto não foi inesperada. Já o que ele fez a seguir, foi um balde de água fria do qual eu jamais recuperarei.

Não importava o que ele fizera antes, ou por que é que o fizera — importava o ali e o agora.

O momento em que o Dinis puxou de uma pistola e disparou à queima-roupa sobre os dois agentes foi o momento em que eu percebi que o meu amigo já não existia.

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