O Mal Humano: APREENSÃO (Destaque #3)

Foi nos inícios de Outubro de 1992 que um candidato a primeiro-ministro foi vítima de um atentado num dos hotéis mais emblemáticos de Lisboa. O excerto que se segue é uma recriação dessa cena mítica e procura abordar vários temas. Por um lado, serve para demonstrar que Fernando ainda pensa em Dinis como um amigo, não como um mero criminoso. Por outro, tem noção de que as coisas já não são como eram. Tal como fiz noutros segmentos deste episódio, também aqui procuro caracterizar um personagem através da observação que ele faz dos elementos que o rodeiam, sejam eles pessoas ou situações. Espero que gostes do resultado.

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Um mês após o seu desaparecimento, ele continuava sem dar sinal de vida. Todos os dias eu ligava para ele, todos os dias apanhava o gravador. O André tinha ido para casa de uns primos em Lisboa. Esperei que gostasse de lá estar. Algo me dizia que tão cedo não tornaria a ver o pai. Nenhum de nós, arrisquei então pensar.

Um dos seguranças na suite assegurou-me que a situação estava controlada. Um tipo que nem idade devia ter para controlar a bexiga, a garantir a segurança de um alvo de alto-risco, mas tudo bem. Voltei a sair para o corredor e refiz os passos que já tinha feito vezes sem conta desde que entrara naquele hotel.

A suite de onde eu saíra era a única no nono e último piso. O acesso era feito por elevador privativo, que só funcionava mediante o uso de um cartão magnético. Havia também uma porta de incêndio que dava acesso a um lance de escadas. Experimentara a porta várias vezes para testar a sua inviolabilidade e de cada vez que o fazia tinha de ter alguém comigo para poder voltar a entrar no piso. Se não fizesse assim, teria de ir à recepção, contar o que se passara e esperar que alguém fosse comigo até ao último piso. Como disse antes, tolerado, não desejado.

Entrei no elevador — tal como a porta, podia-se usá-lo para sair, mas o acesso era só com cartão — e desci até ao segundo piso. As portas abriram e eu pus o pé perto do sensor para evitar que fechassem. Por todo o lado, seguranças revistavam jornalistas e confirmavam as suas credenciais antes de os deixarem entrar na sala de conferência. Quando a festa acabasse, a comitiva desceria até ali e ofereceria aos jornalistas que lá aguardavam uma declaração e a oportunidade de responder a perguntas sem interesse.

Procurei o rosto do Dinis no meio daquela mole humana. Nada.

Carreguei para o piso principal e afastei o pé do sensor.

Imaginei que no local onde se reunia o PNP, o cenário não devia ser muito diferente.

Atravessei o lobby e aproximei-me da porta principal. Um cordão policial mantinha a necessária distância entre o povo e os seus representantes.

Segundo o programa interno, que um dos assessores de campanha me tinha fornecido, a conferência de imprensa teria uma duração máxima de dez minutos. Depois, conforme o resultado da votação, Hermínio Tondela sairia para a rua e agradeceria, ao vivo, aos seus eleitores.

Era esta parte que me preocupava mais. Dentro do hotel estava tudo mais ou menos controlado. Lá fora, desde que o perímetro de segurança fosse respeitado, à partida não haveria problemas. Infelizmente, quando se lidava com políticos ou outras figuras do género, era certo e sabido que eles tinham a mania de fazer as coisas como lhes apetecia e não como deviam ser feitas.

Em abono da verdade, confesso que na altura esperei que o destino interviesse na forma de um tiro bem certeiro — o que me incomodava era a possibilidade de ser o Dinis a puxar o gatilho.

Pensei em sair, ir apanhar ar e fumar um cigarro. Em vez disso, dei por mim a olhar para os prédios em volta, a pensar no que faria se estivesse no lugar do meu desaparecido colega e a concluir que ele faria exactamente o mesmo que eu.

Assim que me apercebi disso, dei meia volta, atravessei o lobby e chamei o elevador. Esperei dez segundos, fartei-me, segui para as escadas e subi até ao piso da suite. Não iria valer de nada — estava a lidar com gente demasiado teimosa — mas tinha de lhes dizer o que acabara de descobrir. Cheguei até à porta e bati com força, esperando que do outro lado estivesse alguém. Olhei para as horas. Já deviam estar a descer. Tarde demais. Meia volta e ala que se faz tarde.

Do oitavo ao rés-do-chão foi um instante, mas esse instante foi demasiado longo. A comitiva atravessava o lobby com o candidato, já vencedor confirmado, na dianteira. Estaquei, assistindo ao desenrolar dos eventos, rezando para que o meu palpite estivesse errado.

Hermínio Tondela saiu do hotel Capital, acenou às pessoas e aproximou-se para cumprimentar umas tantas. Esticou a mão e tombou na carpete vermelha, com um olhar de espanto, um sorriso falso e um pequeno orifício na testa.

Já sei o que estás a pensar: será que morreu? Tudo indica que sim, mas terá mesmo? A minha resposta é simples: clica aqui para adquirir este episódio e descobrir a resposta.

 

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