O Mal Humano: A ARCA (Destaque #2)

Continuando com o destaque da semana a A ARCA, o excerto de hoje acompanha os momentos que antecedem a primeira visita de Rui à arca. A cena é contada do ponto de vista de Valter e tenta dar uma ideia de como eram as coisas antes de a sua mulher ter morrido. Ao mesmo tempo, procura ilustrar o estado de espírito de Valter.

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Valter levou Rui pelo corredor que conduzia à cave. Ouviu-o soltar um suspiro e reconheceu nele um tom de repugnância mal disfarçado. Apesar de desagradável, era difícil não lhe dar razão.

Quando a sua Ana era viva, a casa tinha outro aspecto. Não havia teias sobre teias em todos os cantos e recantos. Não havia manchas de humidade que mais pareciam quadros de musgo. Não havia aquele odor bafiento que levava a maior parte dos visitantes a cobrir o nariz. Ela costumava dizer que o facto de morarem numa zona menos luxuosa não era razão para não serem asseados.

Na véspera de completar um ano desde que a pessoa mais importante do seu mundo partira para sempre, Valter ainda lutava por aceitar isso. Sabia que, mais dia, menos dia, teria de arregaçar as mangas e dar uma valente limpeza à casa, não fossem os vizinhos começar a desconfiar que ele tinha trazido o corpo dela do cemitério.

Não lhe faltava dinheiro para pôr a casa em ordem. À conta da sua ocupação e da sua decisão de a rentabilizar, tinha dinheiro para mandar aquela casa abaixo e construir outra igual ou melhor. Se quisesse, tinha os meios necessários para sair daquela zona, daquela vida.

Infelizmente, só os meios não chegava. Tal como outros antes dele, Valter estava preso a uma obrigação muito especial ─ uma tarefa única que acompanhá-lo-ia até ao fim dos seus dias, não importava para onde fosse. Mal por mal, ali tinha as suas memórias. Dolorosas, porém suas.

Abriu a porta e procurou o interruptor. A cave até tinha janela para a rua, só que o vidro estava tão sujo que mais parecia o universo na sua escuridão primordial.

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MH-BRR (89)

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