[Um Cappuccino Vermelho]: um excerto

Numa altura em que assinalo o quarto ano da publicação de Um Cappucino Vermelho resolvi aproveitar para partilhar uma das minhas partes preferidas do livro. O excerto que se segue retrata o primeiro encontro entre Ricardo Neves (o assassino/escritor, ou o escritor/assassino) e Laura Fernandes (a mulher que ele tem de matar/a mulher com quem se envolve). A cena tem particular interesse por ser uma daquelas pontas soltas que acabou por dar origem a uma nova história. Sobre isso, falamos depois. Até lá, (re)leiam isto (e deixem os vossos comentários no fim):

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«Ela sentou-se na sua mesa habitual e pediu também um cappuccino. Ricardo não pôde deixar de reparar nessa coincidência. Sentindo-se observada, olhou em volta e o seu olhar prendeu-se em Ricardo. Sorriu.

Ricardo desviou o olhar como se não fosse nada com ele. Deu o primeiro golo no seu cappuccino ao mesmo tempo que ela. Olhou de esguelha e apercebeu-se de que ela continuava a fitá-lo. Agora era ele o observado. Sentia-se estranho naquele papel.

Foi então que o impensável aconteceu. Algo que Ricardo nem sequer se atrevera a considerar. Ela levantou-se, caminhou até à mesa dele e apontou para a cadeira.

“Posso?”

Ricardo tinha sido apanhado de surpresa, tanto pelo acto como pela pergunta.

“Sim.”

Não sabia o que fazer. Tinha de deixar as coisas seguirem o seu rumo. Neste momento era ela quem controlava a acção.

“O meu nome é Laura.”

O que dizer? Prazer, vou matá-la em breve.

“Ricardo.”

“Costumas vir aqui muitas vezes, não é?”

“É.”

“És escritor, não és?”

Os livros de Ricardo não traziam nenhuma fotografia sua. Era um cuidado que ele tinha para que a sua privacidade não fosse excessivamente violada. Uma situação complicada tornara-se mais complicada.

“Sim. Como é que…?”

“Trabalho numa editora. Tenho os meus contactos aqui e ali, como deves calcular.”

“Imagino. E depois?”

“Gostava que viesses trabalhar comigo.”

“Não.”

“Como é que sabes que não queres se ainda não ouviste a minha proposta?”

“Estou contente onde estou agora.”

“Ouve primeiro e depois respondes. Três livros durante quatro anos. Contrato fixo ou por percentagem a trinta por cento. Que dizes?”

Ricardo teve de pensar. Era uma proposta tentadora. Os prazos eram mais largos e a percentagem era dez por cento a mais do que ele fazia na sua actual editora. Se aceitasse, não teria de se preocupar mais com o livro. Pelo menos, não agora.

Havia a hipótese de existir uma cláusula no contrato que tinha com a sua editora actual que o obrigasse a terminar o livro antes de se mudar. Contudo, mesmo que não houvesse qualquer problema em passar de uma editora para outra, a questão não era essa.

A questão era que ele tinha de matar a pessoa encarregue dessa transferência. Era uma proposta impossível de aceitar. Por muito tentadora que fosse.

“Não posso. Tenho um contrato a cumprir.”

“Não faz mal. Cumpres o teu contrato e depois vens ter comigo. Eu não hei-de morrer até lá, espero.”

“Vamos a ver.”»

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