No Other Men in Mitchell, de Rose Hartley [Opinião]

Apreciação feita à versão áudio, disponível em podcast, lida por Stefan Rudnicki.

 

Logo às primeiras palavras somos transportados para as planícies extensas e inóspitas da Austrália. As descrições fizeram-me logo pensar no Mad Max, ainda que esta não seja uma história distópica. Será porventura uma história disfuncional, já que o próprio narrador é alguém que não possui uma noção ordenada do tempo cronológico. Os eventos que ele conta ora se sucedem, ora se antecedem; em alguns casos até se cruzam. É necessário algum esforço por parte do leitor para acompanhar todos os passos, mas é um esforço leve e bem recompensado.

A prosa combina na perfeição com a dicção do leitor. A sua voz grave e pesada confere uma intensidade e força que uma voz mais suave não faria. Ouvi este conto enquanto caminhava por Lisboa. Foram 30 minutos que passaram em 10. Esse desfasamento fica a dever-se às várias passagens dignas de registo, tanto pela escrita como pela entoação, das quais destaco duas.

A primeira requer alguma contextualização – nada de muito revelador, apenas que o narrador acaba de despertar de um coma e encontra-se paralisado.

«Time has gone from me, like a flash in the corner of your eye that disappears when you turn your head to look at it. Not that I can turn my head anymore.»

É um parágrafo curto que mais parece uma montanha russa de emoções. A primeira frase, a subida, é inquietante; a segunda, a descida, quase que me fez soltar uma gargalhada. Mas a minha preferida foi sem dúvida aquela que encerra a história:

«I’m sailing over the crests of the narrow highway in the cab of my truck, all alone, nothing but red rocks and dust and blue horizon.»

O que mais me agradou nesta passagem, além da sua construção, foi a forma como o narrador escolheu entoar as palavras finais. É um final de história que (perdoem-me o spoiler) é também um final de vida, mas a maneira como as palavras são proferidas dá a sensação que uma nova história tem início a partir desse ponto.

Podem ler este conto aqui e escutá-lo aqui.

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