Nos Limites do Infinito – Antologia da Editorial Divergência [Opinião]

Sorte ao jogo, de Ana Luiz
Gostaria de poder só falar bem deste conto – não apenas pelo interesse que tinha por esta antologia ou por ser a história de abertura – mas é complicado. Não é um conto mau, mas é um conto sem tempero. A história desenrola-se sem grandes surpresas; culpa da tagarelice dos personagens que não sabem ser mais discretos. A parte do falar demais podia ser desculpada pelo álcool no sangue, mas a capacidade de elaborar planos já não soa tão credível. Sim, um bêbado pode ter projectos, mas nada de muito complicado.
De resto, faltou um pouco de contenção, de mistério. Faltaram palavras nas entrelinhas e uma maior individualidade dos dois protagonistas (fiquei com a sensação de que só eram dois para que o seu plano pudesse ser revelado ao leitor).
É um conto que, lido uma vez, não obriga a segundas leituras (pior: não estimula) para encontrar pormenores que tivessem passado despercebidos. O que é pena.

A pele de Penélope, de Ângelo Teodoro
Nunca o admitirei publicamente, mas adoro uma história de amor impossível, sobretudo quando é por razões pouco habituais. De um lado, a mulher atraente e misteriosa que se esforça para salvaguardar as devidas distâncias, ainda que por razões pouco usuais; do outro, o homem solitário que descobre ali uma companhia e aos poucos deseja ter mais do que lhe é oferecido. Ambos desejam – ou pelo menos uma parte deseja e a outra acede ao desejo.
É claro que o desejo e a vontade por si sós não chegam para transpôr a barreira que os separa, caso contrário esta seria uma história demasiado rápida e, pior que isso, sem interesse. Não obstante algumas opções, menos boas, sobretudo ao nível de alguma pontuação, é uma história que conseguiu puxar-me até ao final. Um pouco com o auxílio da metafórica cenoura pendurada na vara, crente de que o amor tudo vence. Se não o amor, então o tempo.

Memórias de Teddy, de João Rogaciano
Gostei da base histórica que suporta a história, não tanto do modo como o autor a escolheu explorar. Para mim, ficou bastante aquém do seu potencial. O protagonista/narrador limita-se a contar a sua história de vida que, basicamente, consistiu em matar e trazer desgraça, ainda que inadvertidamente (pelo menos, no início), ou ficar trancafiado e esquecido em arrecadações durante longos períodos de tempo.
A ideia da “maldição” – não será talvez o termo mais adequado, admito, mas serve – é óptima; pecou talvez por excesso. Ao invés de um rodízio de proprietários, mortos e/ou desgraçados, teria sido preferível um único proprietário, sempre em perpétua prosperidade, embora condenado a uma vida solitária e infeliz.
O autor esteve perto disto em determinado momento da história, só que não lhe deu o devido destaque. Creio que, tivesse ele escolhido fazer desse o ponto fulcral da narrativa, o resultado teria sido muito mais interessante.

A Casa da Rua dos Mirtilos, de Ricardo Dias
Três crianças visitam uma casa dita assombrada para encontrar os tais fantasmas que por lá andam. A premissa não é nova, porém não seria a primeira vez que uma ideia antiga e gasta é explorada de forma dinâmica e original. Infelizmente, não foi esse o caso.
O conto parece ter sido para um público na mesma faixa etária que a dos protagonistas – o que em si não tem nada de errado, além de destoar com os restantes contos desta antologia – mas nem isso explica (ou justifica) uma das suas grandes lacunas: o medo. Para uma história de fantasmas, reais ou imaginários, não há medo,  não há sustos, não há nada.
Basicamente, entram na casa para procurar fantasmas, não encontram nada e vão-se embora. Sim, há lá qualquer coisa, mas os personagens permanecem na ignorância, como se não tivessem qualquer intervenção na história. E tiveram?
Não houve antecipação, não houve aquela sensação de nó no estômago. Até mesmo a “grande” revelação no final surge sem gerar qualquer impacto porque o que aconteceu antes não prendeu o suficiente para que esse momento tivesse o efeito que deveria ter.

A colina que olha para ti, de Rui Bastos
Conheço este conto desde a sua primeira versão (pelo menos aquela que o autor apresentou nas sessões do grupo Polícia Bom Polícia Mau), como tal não vou fingir que conhecer o autor e achá-lo um tipo porreiro não teve qualquer influência na minha apreciação desta história. Pode ter tido, não sei.
A verdade é que, nem que fosse um completo desconhecido, ou um conhecido execrável, a escrevê-la a história continuaria a mesma. Em menos de dez páginas somos presenteados com uma narrativa pejada de significado e consequência e isso deve-se muito à teimosia do autor (que deveria ser comum a todos os que escrevem) em querer melhorar sempre de história para história ou, neste caso, de versão para versão.
É uma história que, para mim, funciona como um prato de degustação num serviço gourmet: dose muito pequena, porém cheia de sabor e que nos abre o apetite para mais. Aguardemos pela refeição completa.

Entre Estações, de Yves Robert
Uma leitura na diagonal sugeriu-me que iria gostar desta história. A razão de ser dessa sugestão prende-se com o início do conto que em muito se assemelha com o início de um romance meu. Ideias-base mais ou menos semelhantes, ainda que com resultados bastante diferentes, conforme viria a descobrir a posteriori.
A verdade é que ao ler com atenção este conto fiquei sobretudo indeciso. É uma ideia carregada de potencial, mas que ficou demasiado compactada. Os elementos que aparecem têm razão de ser, só que a sua passagem é tão célere que quase não dá para notar, quanto mais apreciar. Inevitavelmente, isto acaba por afectar (e muito) o ritmo da história. Mais páginas e acredito que o resultado teria sido muito melhor.
Uma última nota: apesar de não ter desgostado do estilo de escrita, confesso que embirrei um pouco com o uso de alguns pontos de exclamação. Em particular no final de um parágrafo onde o protagonista descreve o seu estado de espírito, terminando com a frase: «Em suma, estava deprimido!» Pessoas entusiasmadas com a depressão: aí está um conceito que faz falta no DSM. Fica para uma próxima edição.

 

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