A ARCA – um excerto

No princípio do ano publiquei um excerto do conto A ARCA, aquela que será a história de arranque de uma nova série literária intitulada O MAL HUMANO. Durante este ano conto apresentar algumas novidades. Enquanto isso não acontece, aqui fica mais um excerto:

«A sala cheirava a vida. Toda a casa parecia imbuída de uma energia positiva tão forte que parecia infinita. Era assim que Valter gostaria que continuasse. Infelizmente, sabia bem que aquele cenário idílico, tal como os iogurtes, tinham um prazo de validade. Se tivesse cuidado com as suas emoções talvez conseguisse ficar lá um pouco mais. Era claro que nunca seria o suficiente, mas nem que fosse um minuto, era mais um minuto com Ana.

Desviou os olhos das manchetes do jornal e espreitou o tabuleiro de xadrez antes de verificar as horas. Eram 19:28. Restavam-lhe dez minutos. Tinha de ser forte e manter uma energia positiva. Se conseguisse controlar a saudade e a nostalgia, talvez a sua visita não tivesse de acabar tão depressa.

Ana entrou na sala de avental cheio de nódoas, cabelo por arranjar, e acentuou a sua determinação em ficar ali para sempre. Ou tão perto disso quanto possível.

“Já é a minha vez?”, perguntou, alegre.

Valter acenou. Quando tinha sido a última vez que a vira sorrir? Durante os seus últimos meses de vida, era rara a ocasião em que isso acontecia. Naquele pequeno universo tinha a oportunidade de reviver isso sem precisar de se convencer de que aquilo era real, porque o era de facto.

Ana aproximou-se do tabuleiro e analisou as suas opções.

“Podias era largar isso e ajudar-me com o jantar. Era mais rápido assim.”

“Eu disse-te que arrumava a cozinha depois, não disse?”

“Tu dizes muita coisa, só que até agora ainda não vi nada.”

Ana fez a sua jogada. “Xeque. Para a próxima dou-te cabo do canastro.”

“És tão má pra mim porquê?”

“Despacha-te mas é, senão comes carne esturricada.”

E, dizendo isto, saiu.

Valter voltou a olhar para a capa do jornal. 7 de Julho de 2008: uma semana depois da sua Ana o ter deixado. Afastou essa ideia e espreitou as horas. Tinha de pensar positivo.»

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