Polícia Bom, Polícia Mau (Um artigo sobre escrita criativa e não uma crítica às forças policiais, não vá um deles ler isto)

Em resposta a um artigo publicado pelo Rui Bastos no blogue Que a estante nos caia em cima:

Sou uma pessoa distraída. Sei que não parece mas sou. Sou o tipo de pessoa que está a conversar com alguém ao telemóvel e de repente pensa: ‘Deixei o telemóvel no autocarro!’. Consigo concentrar-me quando é preciso, só que nunca é uma concentração total. Há muitas distracções à minha volta e eu próprio, como já disse, sou distraído.

Se eu tivesse uma profissão normal tipo operador de ogiva nuclear, trapezista, neurocirurgião, ou até mesmo contabilista, isto é, profissões onde uma pessoa se pode distrair de vez em quando, estaria tudo bem. Infelizmente, a minha vida não é assim tão fácil. Eu escrevo. Não é a minha profissão, porque não é com a escrita que pago as contas, mas trato-a como se fosse. Ou tento tratar.

Recordo a ideia inicial: sou distraído. E isso às vezes (muitas vezes) reflecte-se na minha escrita. Nomes de personagens trocados, gralhas com fartura, ausências de vírgulas, info-dumps no início, muito tell pouco show (estou a parafrasear algumas críticas recebidas ao longo dos anos), etc.

Quem escreve está sujeito a isto. E tem de estar preparado para aguentar os golpes e saber fazer calar os denegridores com bons enredos, narrativas e diálogos. Tem de ouvir, calar e aprender. E fazer melhor. Como dizia o Carlin:

“How do you get to Carnegie Hall?”
“Practice.”

Sim, a prática faz bem. É essencial, é excelente. Mas não é o mais importante. O mais importante é ter quem olhe para o trabalho pelo que o trabalho é, mas não sem esquecer a pessoa. Obrigado leitor desconhecido, obrigado leitores amigos e familiares. As vossas palavras são sempre bem vindas, mesmo quando são más, só que eu preciso de mais. Preciso de alguém que leia os rascunhos e as revisões e todas as novas versões sempre com o mesmo nível de atenção. Preciso de alguém que reclame porque é suposto enviar-se só um conto por mês e há idiotas que enviam logo três de uma vez (bandalhos!). Preciso de alguém que me rogue pragas ao abrir o meu ficheiro e perceber que é 1 da manhã e ainda tem mais de 40 páginas para ler e comentar – e faz isso. Preciso de alguém que diga “Gostei, mas podia estar melhor”. Preciso de alguém que diga “Não gostei. Consegues fazer melhor”. Preciso de alguém que saiba dizer porquê – porque é que gostou, porque é que não gostou.

Quando a Oficina de Escrita da Trëma começou eu não esperava entrar. Não sabia contra quem é que estava a competir. Conhecia os organizadores/formadores através do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, mas não fazia ideia quem seriam os meus parceiros de escrita. Por algum motivo achei que alguns seriam melhores que eu. Acabei por entrar, realizei o ritu– (Não posso mencionar isso? Tudo bem. Depois apago.) e verifiquei que o meu palpite estava certo. Havia ali gente com talento, com muito talento, havia ali curiosos, apaixonados, e depois havia eu – o tipo que tinha a tendência para interromper os outros com comentários inoportunos e que comparava contos a ementas de restaurante. (Ao contrário do que possam pensar, é mais difícil do que parece.)

Com o passar do tempo, o grupo foi encontrando o seu núcleo principal, reclamou independência do jugo opressor dos formadores que tanto haviam ostraciz– (Também não? Pronto. Depois apago.) e assumiu uma nova identidade. De dez ou doze irregulares (já não me lembro) passaram a quatro fixos. O Rui, a Elsa, a Sandra e a Leonor passaram a ser os Beatles de Telheiras (pelo menos até descobrirem que tertúlias literárias em cafés permitem o consumo de bebidas e bolos). Quanto a mim, estive algum tempo afastado dos encontros mensais e tornei-me o tipo que era convidado para tocar piano nos espectáculos ao vivo. (O que daria um péssimo concerto, considerando que não sei tocar nada.)

Acabei por não aguentar as saudades e retomei os encontros. A minha ausência permitiu-me então apreciar a evolução que tinha acontecido naqueles quatro seres graças ao seu esforço e dedicação. As suas histórias estavam melhores, mais desenvolvidas; a escrita mais fluída, mais rica; os personagens mais complexos. Sim, houve momentos em que enviei mais contos do que era suposto. Teve de ser. Aquela gente vil tinha-me passado à frente. A prática continuada ensinara-os a escrever melhor, mas ensinara-os também a ouvir e a falar. Um grupo de escrita não vive sem a escrita, mas também não vive sem pessoas que saibam ouvir críticas e pessoas que saibam fazer críticas. Fiquei feliz, fui buscar a minha cadeira ao depósito e sentei-me. (Mais recentemente veio a Júlia, que teve logo direito a sentar-se no sofá. Enfim. Nem vou comentar.)

E aqui estou – lado a lado com quatro cinco pessoas excepcionais que me têm ajudado a corrigir falhas, que me têm estimulado a melhorar, a arriscar técnicas diferentes, a tentar coisas mais arrojadas. (E como se isso não fosse bom o suficiente, de vez em quando há bolo e vinho do Porto. Querem melhor? Arranjem!)

Polícia Bom, Polícia Mau. Fixem o nome. Dentro em breve irão ouvir falar de nós.

2 thoughts on “Polícia Bom, Polícia Mau (Um artigo sobre escrita criativa e não uma crítica às forças policiais, não vá um deles ler isto)

  1. Pingback: PBPM 2015/2016 | Joel G. Gomes, et al.

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