A Imagem – um excerto

Aqui fica mais um excerto de “A Imagem”. Espero que gostem.

«Nessa mesma noite, logo após o jantar, foram para a sala e retomaram a sua pesquisa com novo fôlego. Já tinham o retrato completo de quem precisavam libertar, só não tinham como saber quem era ou onde estava. As visitas de Mário à casa ocorriam sempre por via de sonhos. Esta até podia ter uma presença no mundo real, mas faltava-lhes encontrar o endereço.

A alternativa era aquela que Mário acabara de propor e que ela se recusava a considerar.

“Tu disseste que era só uma vez. Só para encontrar o Ricardo. Tu prometeste.”

Mário pegou-lhe nas mãos e olhou-a nos olhos. “Eu sei. Desculpa. Mas não consigo pensar noutra coisa.”

Vanessa olhou para o lenço de papel aberto sobre a mesa. O rosto da miúda presa parecia desafiá-la. Desviou o olhar. Do lenço e de Mário.

“Tu viste como fiquei quando foi para encontrarmos o Ricardo. Sabes que me dói quando uso as minhas habilidades. Por favor, não insistas.”

Mário tomou-lhe o queixo e virou-a para ele. “Não te quero ver magoada.”

“Óptimo.” Sorriso tímido. “Já somos dois.”

“Mas acho que deves tentar fazer um esforço.”

Vanessa soltou-se, levantou-se e foi até à cozinha. Serviu um copo de água, tomou-o de pénalti e pousou-o no lava-loiça.

Aquela conversa já lhe começava a dar nos nervos. Sim, tenham de impedir um cataclismo; sim, precisavam de encontrar aquela rapariga; sim, ela era a única capaz de a localizar.

Mas isso não queria dizer que tivesse mesmo de o fazer.

Tinha de haver outra solução. Tinha de haver. Eles só não tinham percebido ainda qual era.

Sentiu os braços de Mário envolvendo-a num terno abraço. Beijou-a no pescoço. “Havemos de pensar noutra coisa.”

Ela inspirou fundo e fechou os olhos. Queria usar o que ele acabara de dizer como desculpa para não fazer o que sabia que tinha de ser feito. Talvez houvesse outra solução para aquele problema – talvez mais do que uma até. Todavia aquele não era o único problema que eles tinham em mãos. O tempo também não estava a seu favor.

“Não. Tens razão. Cada de um de nós tem um papel para cumprir. Precisamos de encontrar esta rapariga. E de nós os dois, só eu o posso fazer.”

Mário virou-a para ele, beijou-a; ela retribuiu o beijo. Ele retribuiu a retribuição e quando já havia retribuimento suficiente de parte a parte, voltaram para a sala.

Sentaram-se no sofá. Vanessa pôs as mãos sobre o lenço e fechou os olhos. Esperou que desta vez doesse menos. E que tão cedo não precisasse de voltar a fazer aquilo.

A dormência, vinda de parte desconhecida, espalhou-se pelo seu corpo. Vinha acompanhada de dor, como antes, mas parecia estar em menor quantidade. Talvez estivesse a ganhar habituação. Da próxima vez seria capaz de encontrar quem quer que fosse com uma perna atrás das costas.

Pessoas com pernas atrás das costas eram fáceis de topar.

Soltou um risinho.

“O que foi?”, perguntou Mário.

“Nada. Só uma ideia parva.”

Concentrou-se mais uma vez e deixou que a dormência a tomasse por completo. Sentiu-se elevar. Do alto da sua visão, a planície de essências estendia-se por incontáveis quilómetros. Dali conseguia destrinçar a individualidade. Focalizou-se nas emoções e pensamentos que aquela imagem transmitia e buscou por uma correspondência na planície.

Perscrutou-a do alto. E quando se viu incapaz de distinguir quem procurava, decidiu descer à terra e procurar cá em baixo. Seria um processo mais demorado, mas era o único que havia.

O regresso súbito à terra fez crescer a pouca dor que sentia. Cerrou os dentes com força e tentou despachar-se. Não queria sair enquanto não tivesse o que precisava, mas não queria ficar ali por muito mais tempo.

..nessa

Só mais um pouco. Só mais um pouco. Por que raio é que estava ser tão difícil encontrar a raça da miúda?!

Vanessa

A dor começava a atingir níveis insuportáveis. Tinha de a encontrar. Ela tinha de estar em algum lado.

Vanessa

Tinha de descobrir qualquer coisa. Não podia sair dali de mãos vazias. Se não era possível encontrar uma correspondência exacta, talvez conseguisse uma parcial.

Vanessa.

Tornou a elevar-se e a dor num instante aliviou. Espreitou para baixo, avistou uma correspondência que lhe pareceu próxima o suficiente e extraiu o que precisava para a localizar.

“Vanessa! Diz qualquer coisa!”

Sentiu algo pressionado contra o seu nariz. Abriu os olhos: Mário observava-a com ar de quem não sabia o que fazer. Estava mais zonza do que da outra vez, mas menos dorida. Antes isso. “O-o que foi…?”

Sentiu Mário aliviar a pressão que estava a fazer no seu nariz e viu um lenço de papel sujo de sangue. Em cima da mesa, ao lado do desenho, estavam mais alguns lenços vermelhos.

“Começaste a sangrar do nariz.”

“Nem me apercebi.”

“Devias estar mesmo… para lá.” Pegou num novo lenço e encostou-o com gentileza ao seu nariz. “Como é que te sentes? Queres que vá buscar água?”

“Não. Só preciso de um minuto para me recompor.”

“Eu vou buscar.”

Ainda pensou em retê-lo, mas estava demasiado exaurida para sequer tentar.

Mário voltou pouco depois com um copo de água. Esticou a mão para tomar o copo, mas ele insistiu em ser ele a segurar.

“Eu sei beber água sozinha”, disse, com uma fraqueza de voz que não transmitia grande convicção.

“Pronto. Pronto.”

Mário passou-lhe o copo para a mão. Ela bebeu dois golos, sentiu-se cheia e pousou o copo na mesa. Os lenços vermelhos pareciam-lhe… nem conseguia pensar no que aquilo lhe parecia.

“A sério que sangrei assim tanto?”

“Parecia que estavas a ter o período por via nasal.”

“Eh pá! Que imagem mais…”

“Desculpa.” E beijou-a.

“Não a consegui encontrar. Mas…”

Mário pôs-lhe o dedo nos lábios. “Depois contas. Primeiro vou preparar qualquer coisa para comeres.”

“Ainda agora acabámos de jantar”, queixou-se.

“Nós acabámos de comer eram quase dez.”

“E então? Devem ser aí umas dez e meia, se tanto.”

Ele abanou a cabeça e sorriu. “Já passa da uma.”»

 

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