A Imagem – um excerto

Como há já algum tempo não publico nada, aqui fica um excerto do meu livro “A Imagem“. Todos os comentários são bem vindos.

«Luís acordou com a bexiga quase a explodir. Esgueirou-se do colchão fino e velho que partilhava com dois dos seus irmãos. Ao pisar no chão de pedra frio com os pés descalços teve vontade de espirrar. Mordeu o lábio e conteve-se. Um dia iria sair do frio de Elvas e morar num sítio mais quente. Pelo menos no Inverno.

Abriu devagar a porta do quarto. Ao fazê-lo, viu os pais na sua austera cozinha, conversando com um homem alto, careca e imponente. O fato que ele trazia vestido devia custar mais do que o pai ganharia em dez anos de trabalho honesto. Isto se o pai fosse um trabalhador honesto…

A presença inesperada dos pais e daquele misterioso visitante aconselhou-o a esperar que o caminho estivesse livre. Encostou a porta devagar, apertou as mãos entre as pernas e esperou que não demorassem muito.

Olhou para a janela do quarto e recriminou-se por ter feito queixa do seu irmão Filipe, por este ter feito xixi de repuxo. O jeito que lhe daria agora poder abrir a janela e esgueirar-se para a rua para se aliviar. Vistas as coisas, não seria muito diferente de ir à barraca. Tirando as paredes em volta, era só um buraco no chão.

A sua atenção foi desviada para a discussão que decorria na cozinha ao escutar um estrondo. Espreitou pela fechadura e viu o seu pai a gritar com o visitante. Embora as vozes dos adultos se espalhassem pela casa toda, Luís era a único naquele quarto que estava a pé. Não duvidava que os seus irmãos também estivessem acordados, mas nenhum deles iria arriscar expôr-se.

“Nem pense nisso! Não foi isso que combinámos.”

O visitante abanou a cabeça e olhou de soslaio para a porta do quarto. Apesar de fechada, e de o quarto se encontrar mergulhado numa escuridão profunda, Luís sentiu como se estivesse a olhar directamente para ele e perdeu o domínio da sua bexiga. Envergonhado, rogou uma pequena praga a si mesmo.

Voltando a sua atenção para os pais, o homem disse: “As minhas ordens são para levar o mais velho. Estou autorizado a compensar a diferença, caso queiram.”

“O mais velho faz-me falta”, queixou-se o pai. “É ele que me ajuda.”

Ajuda… Era ele que fazia o trabalho todo.

O visitante não respondeu.

“O Filipe tem só dois anos de diferença”, interveio a mãe. “E se?”

O marido olhou para ela, danado. “Não te metas na conversa, que isto não te diz respeito!”

“Os filhos são meus também!”

O marido esbofeteou-a. “Não me levantes a voz! Não penses que é por haver cá visitas que não as levas!”

Luís observou a violência com neutralidade. Tornara-se tão banal que já não tinha qualquer impacto.

“Não tenho a noite toda”, reclamou, impaciente.

Voltando-se para ele, o pai de Luís responde: “Sabe que mais? Vá lá ter com quem o mandou e diga-lhe que vá cantar para outra paróquia. Acabou-se.” Terminou a declaração espetando um dedo no peito do visitante.

Num movimento só perceptível pelas suas consequências, o visitante agarrou no dedo e empurrou-o para trás, até encontrar resistência. O pai esticou o outro braço para alcançar uma faca em cima da mesa. Percebendo a sua intenção, o visitante venceu a barreira que faltava e quebrou o indicador.

Distraído pela dor, o pai esqueceu-se da faca; o visitante moveu-se para alcançá-la.

Tentando recuperar o atraso, o pai esforçou-se por ser mais rápido, mas em vão. O seu adversário agarrou na faca, ele agarrou ar. Ainda assim, não pensando em desistir, atirou-se contra o seu oponente numa tentativa de o derrubar. Limitando-se a fazer um ligeiro desvio, usou o balanço do golpe contra o próprio atacante e empurrou-o contra a mesa.

Luís lembrou-se das vezes que tinha sido ele a sofrer nas mãos do pai. Ver o pai levar um tratamento daqueles quase que o faria sorrir, não fosse o pânico que sentia.

Com a mão que ainda estava ilesa, o pai lançou mais um ataque. Em resposta, o visitante aparou o golpe com facilidade, torceu-lhe a mão e pressionou-a contra a mesa.

“Não tenho tempo para isto”, disse, e cravou-lhe a faca na mão. Antes que o pai pudesse gritar, o visitante tapou-lhe a boca com a mão. Olhou para a mãe de Luís e ordenou: “Vai buscá-lo.”

Ela permaneceu onde estava – calada e estática.

Vendo que tão depressa ela não iria fazer fosse o que fosse, removeu a faca da mão e espetou-a na laringe. Sem perder mais tempo, avançou para a mãe e perguntou: “Onde?”

De mão trémula, ela apontou na direcção do quarto de Luís. O visitante seguiu até lá e abriu a porta.

“Vem comigo.”

“Para onde?”, perguntou Luís.

“Para a tua nova vida.”»

 

“A Imagem” é o segundo volume da série “A Intersecção”. Está disponível em formato físico e pode ser encomendado pelo email joel.gomes@gmail.com ou ainterseccao@gmail.com. Opções de compra em formato electrónico podem ser consultadas aqui, bem como possibilidades de desconto.

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