Quem o diz não sou eu #7: Vítor Frazão

frazão

O convidado desta edição faz parte da Insonho, uma antologia publicada pela Estronho (editora brasileira) com contos sobre o folclore sobrenatural português (dizem que a seguir uma editora portuguesa publicará uma antologia sobre contos do sertão e da roça); é também um dos fundadores do projecto Imaginauta, ex-membro do colectivo Fantasy & Co e participante regular em várias antologias e fanzines. Arqueólogo por profissão, escritor por paixão: Vítor Frazão.

Meu caro Vítor, obrigado por aceitares este convite. Queria começar por uma questão polémica e depois vamos acalmar um pouco para não afugentar ninguém. Quem procura por ti no Google tem de filtrar entre dezenas e dezenas de entradas a uma empresa de reparações automóveis. (Eu tenho o mesmo problema com prefeitos brasileiros.) Nunca pensaste num pseudónimo, ou o desafio é destronar esses tipos das reparações?
Terei de acreditar em ti, já que não tenho o hábito de google myself. Quanto a pseudónimos só usei em concursos que o exigiam. Tendo em conta a quantidade de narrativas que já tenho com este nome não vejo grande vantagem em arranjar outro.

Passemos a coisas mais sérias. És um dos autores presentes na recém-publicada antologia Insonho da Editorial Estronho. O que tens a dizer sobre o facto de ser uma editora brasileira a decidir publicar uma obra sobre um tema tão português? Já agora, fala-nos um pouco do que trata o teu conto.
O que há para dizer, enquanto não nos habituarmos a apreciar e aproveitar o que temos alguém o fará por nós.
O meu conto “Na Escuridão” é uma recontagem faustiana da lenda da Moura Encantada da Lagoa Escura, que se insere na clássica categoria de “jovens que vão onde não devem, recebem o que não querem”. Ou pelo menos assim parece…

O teu primeiro romance, “A Vingança do Lobo”, foi publicado em 2009. Estamos em 2015 e nestes últimos seis anos (ou mais) tens trabalhado sobretudo no formato conto. Foi uma experiência que te correu menos bem, descobriste que funcionas melhor no formato conto, ou a escrita de um romance requer tempo que não tens?
Na verdade nem uma coisa nem outra. Após “A Vingança do Lobo” escrevi algumas coisas fora do formato conto, incluindo 3 sequelas. Simplesmente os contos é que têm saído para o público, em grande parte pela participação em projectos como o Fantasy & Co., Nanozine, etc
Isso e o facto de ter grandes dificuldades em recusar um desafio. Falam-me na iniciativa x ou y e eu, mesmo não querendo, acabo por pensar num conto para ela.

E essas sequelas estão guardadas por achares que não são boas o suficiente? A questão de falta de interesse das editoras, hoje em dia, já não é desculpa para não se publicar. Porque não apostar no formato electrónico?
Não acho que o problema seja tanto a qualidade, embora certamente daria uma restruturação no texto à luz do que fui aprendendo. O ponto essencial é que isso exigiria um grande investimento de tempo que podia usar em outros projectos, alguns dos quais obrigações que não posso (nem quero) escapar.

Referes-te às tais sequelas. Quando te perguntei porque não apostar no formato electrónico, referia-me ao uso de plataformas electrónicas (tipo Smashwords) para divulgar (talvez rentabilizar) o teu trabalho. Se não com essas histórias que não consideras prontas, pelo menos com outras. Nunca te passou pela cabeça ou achas que não vale a pena?
Os outros trabalhos têm sido disponibilizados digitalmente. E pela falta de adesão que esses conteúdos digitais gratuitos têm tido não prevejo grande futuro para os pagos. Verdade, esses são contos e o nosso público tem um grande preconceito com contos, com um formato maior talvez fosse diferente.
Façamos uma experiência com os teus leitores: quantos aqui estariam dispostos a pagar, vamos supor, 2 euros por uma sequela de “A Vingança do Lobo” ou mesmo por uma versão revista da mesma?
[Podem responder nos comentários.]

Considerando todo o teu reportório, que história escolherias como sendo a que melhor representa o teu trabalho (tipo cartão de visita)? De que trata essa história?
Gostaria de dizer que seria “O Último Natal”, da Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia – vol. 3, pois foi o conto em que consegui o máximo aproveitamento de espaço e significado, todas as palavras nele têm de lá estar.
Mas a realidade é que o melhor representante para dar a ideia do que esperar dos meus outros contos será “Se uma árvore cai na floresta”, que faz parte da antologia Halloween do Fantasy & Co..

Aproveitando que falas do Fantasy & Co., uma das imagens de marca desse projecto sempre foram as suas antologias temáticas. Numa dessas antologias, dedicada a homenagens ao universo de outros autores, tu criaste uma versão de Coimbra inspirada no Neverwhere do Neil Gaiman. Após o final da história, numa nota pessoal, deixavas em aberto a possibilidade de voltar a explorar esse universo, inclusive num registo mais longo. Arrependeste-te logo depois de abrires essa janela ou estás mesmo pronto para aceitar esse desafio se ele te for proposto? E já agora, como é que seria o enredo?
Foi puxado para trás por outro projecto menos derivativo. Fazendo-o provavelmente seria uma prequela aos eventos do conto.

Há alguma história que retirarias do teu reportório, se entretanto chegasses à conclusão que podias fazer melhor, ou as peças menos boas também fazem parte do percurso?
Sim, claro que há, but you can’t unring a bell. Prefiro aprender com a experiência e pensar no futuro.

Tens um processo de escrita fixo ou gostas de experimentar novas técnicas consoante o tipo de projecto?
Neste momento é um processo fixo. Well é mais uma compulsão. Por mais técnicas que use acabo sempre por voltar ao método de escrever por etapas com objectivos para pausas, durante o qual mutilo os detalhes do esquema pré-feito, deixando os elementos da grande escala.

Tentas planificar tudo ao detalhe ou deixas algumas partes sujeitas a inspiração do momento?
Em algumas partes o planeamento resume-se a uma palavra ou frase, mais uma objectivo que um guião, outras são detalhadas. Tento não deixar muito ao cargo da inspiração do momento porque a musa não está assim tão bem domesticada, mas nenhum plano está gravado na rocha, há sempre espaço para mudanças estruturais.

Que semelhanças há (se as há) entre a forma como abordas um projecto de escrita e um projecto de arqueologia?
Provavelmente só na disciplina da pesquisa. Fora isso não tem nada a ver. Escrita é algo criativo e livre, em arqueologia limito-me a apontar os factos, é algo seco e restritivo. Se calhar é por isso que alguns dos meus colegas deixam a imaginação voar mais do que deviam…

O que é que te fez entrar para a Arqueologia? Foi uma escolha cem por cento tua ou houve influências?
Que influências poderiam haver? Ninguém na minha família pertence ao meio e as amizades nele vieram depois. Escolhi porque de entre todas as hipóteses era aquela que acreditava conseguir praticar melhor. E consigo, mas isso por si só não é suficiente.

O que é que funciona mais como um escape para ti, a escrita ou a arqueologia?
A escrita. A arqueologia é só um trabalho. Tem momentos interessantes, mas nunca funcionaria como escape.

Os teus afazeres profissionais ajudam-te a criar uma disciplina de trabalho que depois aplicas na escrita, ou é tempo em que poderias estar a escrever? Por outras palavras, se tivesses a opção, largavas a arqueologia e dedicavas-te só à escrita?
Escolhia escrita em detrimento de arqueologia sem hesitar. Arqueologia é uma área fascinante para estudar, mas como profissão, neste país, neste momento, é horrível.

Neste país, neste momento, e lá fora? Isto poderá soar um cliché, mas não é o sonho de qualquer arqueólogo ir para o Egipto desenterrar uma pirâmide? O que é que te prende cá?
Soa porque é um cliché, nem todos os arqueólogos querem ser egiptólogos. Lá fora as condições variam de país para país, claro, mas, tal como a média dos salários, é proporcionalmente mais rentável. Em todo o caso estava era a indicar que arqueologia em Portugal já foi rentável. Dentro do razoável, claro, let’s not go crazy.

Imaginei que fosse. Na tua opinião, o que é ajudaria a melhorar o actual cenário da arqueologia em Portugal? Mais verba ou menos burocracia?
O acompanhamento arqueológico de obras continua a ser o principal emprego do arqueológo português. Nos últimos anos com diminuição das obras públicas e aumento do número de licenciados o sistema é insustentável. Mesmo os mais sortudos têm de enfrentar a precariedade dos recibos verdes, num meio em que as empresas não são conhecidas pela honestidade. Burocraticamente já estamos melhor, mas a maior ferramenta para desbloquear dificuldade nessa frente, o Portal do Arqueólogo, ainda pode ser aperfeiçoado.
Enquanto dependermos deste sistema, não vejo grande solução. Arqueólogos sofrem e sofrerão do mesmo mal de todos os outros licenciados relacionados com a cultura.
Portanto sim, mais verbas certamente ajudariam, mas criar legislação que permitisse o arqueólogo capitalizar o objecto do seu estudo em relação com as áreas do turismo, por exemplo, seria um bom passo.

Quando referes a questão do número de licenciados, queres dizer que há demasiados arqueólogos em Portugal?
Resumidamente, sim.

Vamos falar um pouco da Imaginauta, um projecto do qual és co-fundador. O seu mais recente projecto, depois de “Comandante Serralves – Despojos de Guerra” e da “Operação Livro no Sapatinho”, é um RPG, também ele baseado no universo Serralves. Facto curioso: desta vez, vão actuar mais como júris do que como criadores. Estás preparado para essa mudança de papéis?
Não pensei muito em potenciais problemas com essa mudança, honestamente, talvez por estar ofuscado pela curiosidade de ver o que os concorrentes irão criar.

Não é demasiado cedo para entregar o vosso projecto nas mãos de desconhecidos? Na outra entrevista que te fiz enquanto parte da Imaginauta, o Carlos Silva referiu que o Serralves é open source, mas mesmo assim… Estão prontos para o que vier aí?
Não estamos a entregar nada, estamos a dar a oportunidade de outras pessoas participarem, como tomo temos feito com os ilustradores.
Afinal, não podemos dizer que estamos abertos a participações e depois recusar a partilhar os “brinquedos”.

Essa sempre foi a filosofia do projecto.
Meu caro, obrigado pela disponibilidade. Foi um prazer. Cedo-te agora o espaço para uma última mensagem. Diz de tua justiça.
Recentemente o fantástico perdeu um dos seus maiores autores. Acho que não sou o único leitor a tentar encontrar, no misto de tristeza e fúria pela perda de Pratchett, algum consolo nas magníficas obras que nos deixou e na consciência da vida plena que levou.
Terry Pratchett, thank you for teaching us to dream with a smile. The world will miss you.
If «no one is finally dead until the ripples they cause in the world die away…» we will make you live forever.

One thought on “Quem o diz não sou eu #7: Vítor Frazão

  1. Mais uma entrevista bem interessante. Sigo o trabalho do Vítor Frazão com bastante entusismo e por isso não é supresa que aguardo as sequelas ao “Vingança do Lobo”. E respondendo à questã colocada aos leitores: Estaria mais que disposta a pagar entre 2€ e 8€ por um ebook da sequela do “Vingança do Lobo”. Isto porque já conhecendo o primeiro e as personagens, acho que vale bem a pena.
    Atentamente,

    Gostar

Se não for pedir muito, deixe a sua opinião

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s