Quem o diz não sou eu #6: Ana C. Nunes

QDNS 6

A entrevistada desta edição escreve no papel com caneta e lápis. Presença bem vincada nas redes sociais, participante regular do Nanowrimo, escreve e ilustra as suas histórias. De Barcelos para o mundo: Ana C. Nunes.

Qual é a história que tens na gaveta há mais tempo? Aquela que de vez em quando olhas, mas não tocas, e pensas: um dia…?
Antes de mais fica um grande “Olá” ao Joel e leitores do blog! Quanto à questão tenho três, mas aquela em que não toco há mais tempo e que não sei quando vou repescar, apesar de ter muita vontade de o fazer, é um projecto chamado “O Efeito Dominó” que foi o primeiro romance ao qual me dediquei de corpo e alma. Durante cerca de dois anos só escrevi para este projecto. Ou, melhor dizendo, revi o pouco que escrevi. Eu escrevia e revia incessantemente, até que percebi que assim não ia a lado nenhum. Estava tão focada nos primeiros dez capítulos que não arrancava dali, por isso mudei de ares. Entretanto outros projectos se foram intrometendo e “O Efeito Dominó” ficou para trás mas um dia espero voltar a pegar nele. É uma história de aventura, amizade e provações, num mundo em que humanos coabitam com metamorfose mas não confiam neles.

Tens obra publicada em romance, bd e conto. O mundo em que te mexes melhor é aquele que os teus leitores mais apreciam ou eles são mauzinhos para ti e pedem mais e mais daquilo que é menos fácil (ou rápido) de fazer?
Para ser sincera, não sinto grande pressão nem para um, nem para outro. Como disponibilizo mais contos e estes acabam por ser os mais lidos, os leitores tendem a esperar mais histórias curtas, mas não me exigem mais tempo num ou noutro formato. E mesmo que o fizessem não sei até que ponto poderia responder em género. Cada história exige ser contada à sua maneira, no seu formato, nas suas limitações (ou não!).

O fantástico, “nas suas vertentes”, é o teu género de eleição. Sentes necessidade de que haja um elemento irreal nas tuas histórias para que estas funcionem como um meio de fuga da realidade? Achas que uma comédia ou um policial não criam distância suficiente?
A verdade é que eu bem gostava de escrever comédia! Ehehe! Acho que comédia é das coisas mais difíceis de se escrever mas de vez em quando lá me aventuro um pouco nesse campo. No fundo o facto de não escrever muito fora do género da fantasia também pode estar relacionado com o facto de eu não ler tanto noutros géneros. Tento e gosto de diversificar a minha leitura mas onde me foco mais é na fantasia e ficção científica. Afinal é o que mais gosto e quase todas as minhas ideias têm um elemento de não-real ou de teste da realidade, mas não julgo que seja por estar mais ou menos distante da realidade, já que acredito que por vezes a realidade é bem mais cruel e assustadora que qualquer história de terror. Contudo admito que o fascínio também está no facto de não estar presa ao que é percepcionado como real. Posso explorar outros horizontes, outras reacções, ou será melhor dizer que tento explorar as reacções mais realistas sem usar uma imagem sólida da vida mas antes o seu reflexo ligeiramente alterado no espelho.

O que é que o teu processo de escrita tem de diferente em relação ao de outros autores?
Para responder a isto teria de conhecer o processo de uma infinidade de outros autores, e não conheço. O que posso dizer é que antes de começar a escrever tenho de ter uma clara noção de onde começa o conflito narrativo e onde ele termina. Não quer dizer que a minha história vá ter início no preciso momento do primeiro conflito, nem que o final, chegado o momento de ser escrito, seja exactamente igual que eu tinha primeiro delineado, mas antes de começar a escrever, antes de me embrenhar na narrativa, tenho de ter um mínimo de dois alicerces: início e fim. Embora seja raro o projecto que começo sem saber também muito do miolo que terá no interior. Outra coisa que pode ser considerada diferente é o facto de eu gostar de desenhar as minhas personagens, para assim ter uma melhor visualização de como elas são e poder manter as minhas descrições físicas sempre fiéis. Pois acontece que quando não o faço acontece muitas vezes de o João numa página ter os olhos azuis e dez páginas depois já os ter castanhos.

Considerarias trabalhar num projecto em que o enredo fosse todo definido por outra pessoa ou isso seria uma restricção criativa demasiado elevada?
Em principio não mas tudo dependeria do projecto e do quão interessante a história e o desafio fossem. No entanto, por norma, não me meto em projectos onde não me seja dada nenhuma liberdade artística.

É um factor comum a muitos escritores iniciar projectos que ficam a meio. Boa parte das vezes isso deve-se à falta de tempo, de interesse, outras prioridades. Pode haver também um outro motivo, que é achar que aquela ideia precisa de mais tempo (no sentido de experiência pessoal) para ser desenvolvida da melhor forma. Acreditando que terás pelo menos uma história assim na tua gaveta, se soubesses que o mundo iria acabar daqui a dois anos, farias o esforço de concluir esse projecto? Ou irias para a rua gritar “Éo fim do mundo!”?
Oh, tenho mais que uma! Bem mais que uma história em situações semelhantes. Ora, se soubesse que mundo iria acabar em dois anos, sim, faria um esforço extra para terminar todos esses projectos em aberto, mas também teria outras coisas, mais pessoais, que teriam de ter prioridade. Contudo acho que 2 anos são tempo suficiente para poder passar um pouco dele a escrever e a dar um fim digno a projectos que acabam por ter de ser adiados em prole de outros, ou porque simplesmente, como disseste, ainda não me sinto madura o suficiente para os realizar.

Em algumas das tuas histórias noto uma certa queda para o humor negro, por vezes quase a roçar o sádico. Aplicas nos teus personagens o que não podes fazer cá fora?
Humor negro, sim! Sádico, não me parece, pelo menos não de forma consciente. Sou gráfica, na escrita, isso é verdade, mas não o faço só para meter nojo, ou para chocar. Uso-o como uma ferramenta para chamar a atenção a algo maior, normalmente algo relacionado com as personagens ou com o ambiente em que elas vivem. Não gosto de descrever cenas perturbantes só porque sim, mas também não me coíbo de mostrar a crueldade quando esta é determinante para a história. O humor negro, esse sim, eu tento aplicar tanto quanto posso. Também um pouco de forma inconsciente, pelo menos no início. E não, não tenho qualquer vontade de fazer o que algumas das minhas personagens fazem, nem sequer de passar pelo que muitas delas passam. Eu não sou nada meiguinha com elas, por isso é normal que não tenha quaisquer pretensões de viver ‘na pele delas por um dia’.

É possível que esteja a cometer uma gafe com a próxima pergunta. Os teus colegas de trabalho sabem que és escritora ou não fazes publicidade nesses locais? (A gafe é não ter a certeza se tens ou não outra ocupação para além da escrita.)
Não estás a cometer gafe nenhuma! Infelizmente ainda não consigo sobreviver apenas da escrita. Quem sabe um dia … Mas respondendo à questão: Sim, sabem, mas não sabiam há cerca de 1 mês. Acontece que entretanto saiu uma entrevista comigo num Jornal regional (Barcelos Popular) e a partir daí, como quase toda a gente o lê, todos na empresa ficaram a saber que eu escrevia. Foi uma situação bizarra mas que me deixou muito contente pois não pensava que fossem tão ‘boa onda’ com este meu gosto pela escrita. O mais engraçado é que quase todos me perguntaram se eu tinha baseado alguma personagem neles. Ehehe! Mas antes disso falava muito pouco e a muito pouca gente da minha escrita. Simplesmente porque não é um tópico que surja naturalmente no local de trabalho.

Quer então dizer que nunca foste para o trabalho com uma t-shirt do Angel Gabriel?
Ahaha! Nem sequer tenho uma t-shirt do Angel Gabriel. Deste-me agora uma boa ideia. Mas nem dava para o efeito que referes porque uso farda no trabalho. O que tenho, sim, é uma t-shirt da BD “Que Sorte a Minha”, que fiz em co-autoria com a Natacha Salgueiro. Já tem uns aninhos!

Creio não estar a ange-gabriel-pacto-de-sangue-capaexagerar ao dizer que o Angel Gabriel ocupa um lugar muito especial no teu coração. Isso torna-o imune a melhorias, caso um dia uma editora venha a demonstrar interesse nele, ou como está fica?
Não exageras, não. A verdade é que apesar de “Angel Gabriel – Pacto de Sangue” não ter sido o primeiro romance que completei, foi o primeiro que revi com afinco e que, chegada ao fim, considerei que tinha potencial para ser publicado. Por isso mesmo dediquei-me de corpo e alma à procura de editoras que estivessem interessadas na sua publicação mas, apesar de alguns contactos interessantes, nunca cheguei a lado nenhum na forma tradicional de publicação, o que me levou à publicação digital. No entanto, caso exista interesse da parte de uma editora em publicá-lo, estou disposta fazer algumas alterações. Aliás, estranharia se a editora não pedisse para alterar nada. Afinal, por mais cuidados que tenha tido, não sou infalível e há sempre coisas que podem ser melhoradas.

Porquê Angel Gabriel e não Anjo Gabriel? Motivações de internacionalização ou soa-te melhor?
Nem uma coisa, nem outra. O título é uma junção do nome dos dois protagonistas do romance: Angel, uma feiticeira que parece mais fraca do que na realidade é; e Gabriel, um vampiro muito poderoso. E para não haverem confusões o título ficou mesmo “Angel Gabriel – Pacto de Sangue”. Foi o título mais votado pelos leitores do meu blog.

Se são duas personagens, não deveria haver um sinal gráfico qualquer a separá-las? Ou a intenção é mesmo dar a ideia de serem dois lados da mesma moeda?
A intenção é mesmo essa. Fazer uma brincadeira com o nome deles. Totalmente intencional.

Tens alguma sequela em mente para o Angel Gabriel?
“Angel Gabriel – Pacto de Sangue” foi pensado como um romance independente. No entanto não descarto a possibilidade de escrever um Prólogo, ou melhor, vários prólogos, em forma de contos, na perspectiva de outras personagens. Contudo não faço promessas, mas as ideias existem.

No que toca a sequelas, a tua Heroína parece ter quase o exclusivo. Já vais em três volume e dá-me ideia que ainda tens mais histórias para contar. Ou não?
Sim, sem dúvida! Mas a Heroína é um caso à parte porque cada história é um conto mais ou menos independente. Não se trata de um volume = um romance, pois isso sim seria bem diferente. Neste momento tenho oito aventuras escritas mas poderão ser mais no final. A Heroína tem potencial quase infinito, enquanto série de aventuras independentes, e além disso é super-divertida de escrever e ler.

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Não há fim em vista, portanto. Enquanto o público gostar de ler e tu gostares de escrever…
Existe um fim à vista, sim. Na nona ou décima história. No entanto é um fim que, se eu quiser, me permite dar continuidade, mas para já não tenho planos para isso. Simplesmente quero dizer que se quiser posso. Afinal eu nunca começo nada sem saber o fim. Contudo esse fim nem sempre é definitivo. Não tem necessariamente de me fechar as portas todas.

E ainda vais só na terceira. Essas seis ou sete histórias já estão esboçadas de alguma forma ou estão só ainda na tua mente?
Já escrevi oito (incluindo as 3 já disponibilizadas), por isso só me falta o fim e já tenho uma ideia de como quero que termine. Eu escrevi-as todas seguidas, porque foi mais fácil e a história fluiu melhor. Depois vou reunir todas num volume único para quem quiser ter tudo num.

Ia perguntar-te que novos projectos tens pela frente, mas creio que a resposta já está dada.
Projectos futuros são muitos mas eu estou a tentar não sonhar tão alto e dedicar-me só a um projecto de cada vez. De qualquer forma aquele que está mais em mãos, além do Heroína, é o romance “Água Mole em Pedra Dura”, que é o primeiro de uma série, que se passa no nosso lindíssimo Portugal. Fala de seres sobrenaturais, tanto do nosso folclore tradicional como do mitológico europeu e mundial. Já escrevi mais de meio mas tive de parar e entretanto quero voltar a pegar-lhe.

“Água Mole em Pedra Dura”, gosto do título.
Obrigada!

Voltando à Heroína, essas histórias são stand-alones ou há uma continuidade evidente?
São histórias independentes mas certos elementos repetem-se. Não só os protagonistas, mas também outras coisas que aos bocadinhos vão começando a fazer sentido e que culminam nos últimos números. E também acontece que todas as aventuras até agora planeadas acontecem em sequência e num relativo curto espaço de tempo (alguns meses).

Costumas escrever em prosa e também em guião. Que diferenças maiores encontras entre um formato e outro?
Quando escrevo guião para BD tenho que ter em mente que, maioritariamente, só posso transmitir informação ao leitor de duas formas: através do desenho ou através do diálogo. Não há monólogos interiores e não gosto de usar muito os balões de pensamento ou aqueles de descrição para dizer o que quer que seja, a menos que seja impossível evitá-lo. Na BD tudo tem de estar transmitido no desenho e no diálogo. E este tem de ser fluído, não pode parecer forçado e não pode ocupar o painel todo (embora ocasionalmente até seja um efeito engraçado). Esta parte é bastante semelhante à prosa. Em ambos as conversas têm de ser naturais e não devem servir como pretexto para debitar informação que poderíamos passar de outra forma. Dito isto, escrever um guião obriga-me a imaginar a cena de forma diferente e decidir o que tem de ser mostrado para que o que se passa seja compreendido. É um close-up de um sorriso ou um plano geral da paisagem pós-apocalíptica? A percepção da cena é diferente, embora tanto num meio como no outro se tenha de transmitir a mesma informação. A diferença é que a parte da escrita em que eu descrevo o ambiente nunca é lida pelo leitor da BD, porque isso serve apenas como muleta na hora de desenhar. Não é fácil escrever guiões para BD, embora o possa parecer. E também depende muito se estamos a escrever para nós, e por isso podemos ser mais preguiçosos, ou se estamos a escrever para outra pessoa desenhar e aí temos que ter o cuidado de dizer o suficiente mas não demasiado. O artista também precisa de espaço para que a sua criatividade brilhe. Este equilíbrio é difícil e às vezes acho que ainda não o domino tão bem como gostaria, mas escrever guiões é muito divertido e obriga-me a ver a história de uma outra forma.

Na banda desenhada, mais do que escrever ou ilustrar, é quase como se estivesses a realizar. Concordas?
Em parte sim, concordo.

Noutra parte, discordas. Em quê?
Porque me parece que é mais comparável ao teatro que ao cinema. Ao preparar do cenário, ao estabelecer os focos. Enfim … não é bem comparável mas se o fizesse era com o teatro ou com o compor uma cena para a fotografia.

Ana, obrigado pela disponibilidade. Se amanhã o sucesso for bater à tua porta, já sabes. Agora diz qualquer coisa aos leitores e vai escrever.

Mais uma vez agradeço ao Joel o convite para esta entrevista e a sua dedicação para com esta rubrica e o blog. Já para não falar na sua refrescante forma de divulgar o seu próprio trabalho. Votos de muito sucesso para ti, Joel, e de boas leituras para todos os que gostam de bons livros.

Podem conhecer (um pouco) melhor o trabalho da Ana C. Nunes no blog CANETA, PAPEL E LÁPIS. Até daqui a quinze dias.

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