Quem o diz não sou eu #5: Carina Portugal

Carina PortugalEla pode ter um coração de corda, mas é o que é e não o que parece ser. Autora de contos, poemas e romances, formada em Biologia, a primeira entrevista da nova temporada de “Quem o diz não sou eu” é Carina Portugal.

Vamos começar com um desafio. Um dos teus autores preferidos dava-te permissão para escreveres uma história com o seu personagem mais emblemático. (Tipo a Anne Rice deixar-te usar o Lestat; logo ela que gosta tanto de fanfiction.) Lidarias bem com essa pressão, ou para ti qualquer história tem sempre o seu “quê” de pressão?
Tudo dependeria do fim que a história tivesse. Se fosse algo mais livre, talvez mais uma brincadeira do que um trabalho sério (já escrevi algumas fanfics, faz uns aninhos) a pressão seria pouca porque tornar-se-ia mais uma diversão, uma forma de descontrair através de uma personagem da qual gostava. Se, pelo contrário, o trabalho fosse sério, talvez com algum fim de publicação, aí sim, a pressão seria maior, teria de ter muito mais atenção aos detalhes e personalidade própria da personagem para que fugisse o menos possível ao original.

Imaginemos agora o inverso. Como reagirias se alguém pegasse numa história ou personagem teu e escrevesse algo novo?
Não reagiria mal se fosse citada a proveniência das personagens e se a história não passasse disso mesmo – uma fanfiction. Plágio já não admitiria.

És formada em Biologia. De que modo aplicas esses conhecimentos nas tuas histórias?
Na verdade, não aplico muito, pelo menos conscientemente, nos trabalhos que actualmente tenho publicados. Talvez haja um pormenor ou outro em que possa fazer comparações entre o que aprendi e o que quero descrever, por exemplo na criação de uma criatura, para que seja mais verosímil, mas nada que seja vital para o enredo em si. O que não quer dizer que não tenha já pensado em usar esses conhecimentos de forma mais directa e relevante.

Tens trabalhado sobretudo em fantasia, mas dada a tua formação na área das ciências, seria previsível uma aproximação a histórias mais science-oriented. Nunca sentiste um puxão para a ficção científica? Ou achas que na fantasia tens menos regras a seguir?
Não é por uma questão de regras, é uma questão de gosto. A fantasia sempre me atraiu muito mais do que a ficção científica, desde há muitos anos, tanto a nível de escrita como de leitura. A mitologia, o maravilhoso, o transcendente… Olhando para a minha estante, tenho dezenas de livros de Fantasia, desde Tolkien à Juliet Marillier, passando pelo Martin, o Neil Gaiman, e muitos mais. De FC tenho apenas um, e confesso que quando o li (assim como aos restantes livros da trilogia, que pedi emprestados) não me convenceu de todo. Talvez o problema por vezes seja o facto de alguns autores se prenderem demasiado com detalhes técnicos “futuristas” e não tanto com as personagens em si, o que torna a leitura fria. Contudo, há um sub-género da FC que considero muito apelativo: o Steampunk. Tenho até uma noveleta dentro desse mesmo género, o “Coração de Corda”.

O meu primeiro contacto com a tua escrita foi através de um romance, disponibilizado de modo gratuito na Internet. “O Retrato da Biblioteca”, tanto quanto se pode ler na capa, era para ter sido o primeiro da trilogia de Imtharien. Só que depois viraste-te para os contos. Para ti, este continua a ser um projecto activo ou descobriste que te mexes melhor em formatos mais reduzidos?
“O Retrato da Biblioteca” foi, seguramente, o meu primeiro trabalho. Era, e ainda é, um projecto pelo qual tenho muito carinho. No entanto, e quem chegou a lê-lo deve ter compreendido, está muito longe de ser uma obra-prima. Quando comecei a escrevê-lo tinha 18 anos, e terminei-o sensivelmente um ano e meio depois. Ou seja, a minha sensibilidade crítica não era particularmente apurada. Passado algum tempo, cheguei à conclusão que o melhor seria deixar esse projecto de lado. Não foi uma completa desistência, penso nele várias vezes, mas cheguei à conclusão que antes de enveredar por algo do tamanho de um romance deveria limar várias arestas. Os formatos mais reduzidos ajudam nesse trabalho, porque não só requerem um menor investimento a nível do tempo necessário e do enredo em si, como pelo seu tamanho favorecem a aplicação de pontos essenciais tanto a contos, como noveletas ou romances.

Achas-te uma boa revisora dos teus textos ou dá-te jeito um outro par de olhos?
Não me considero uma má revisora, mas outro par de olhos (ou mais), dá sempre jeito. São pontos de vistas diferentes que detectam pormenores menos bons, partes que estão a mais, erros… coisas que um escritor pode não conseguir perceber no momento, mesmo lendo o que escreveu meia-dúzia de vezes.

O teu processo de escrita varia consoante a história que estás a escrever?
Pode depender um pouco do tipo de história, principalmente no que diz respeito ao possível tamanho da mesma. Mas em geral são variâncias mínimas.

Já publicaste dois volumes de poemas. A par com contista, consideras-te poetisa ou somente alguém que escreve poemas?
Nunca pensei em mim como contista ou poetisa, talvez pelas palavras me soarem demasiado a rótulos. Gosto muito de escrever, tanto poesia como prosa (apesar da qualidade dúbia de alguns dos textos…), e isso é o mais importante.

O título Poesia Dispersa faz pensar num compilar de algo que foi escrito em diferentes fases da tua vida. Escrever um poema requer um estado de espírito diferente de escrever um conto?
Essencialmente, em ambos os casos, o que é realmente necessário é a vontade de escrever, de passar para o papel “aquela ideia” da forma que melhor a possa expressar. Se visitarem o meu blogue, verão que os poemas desses dois volumes estão lá, e não têm um dia fixo para serem publicados. É quando surge a “inspiração”. A ideia de um conto aparece, em parte, da mesma forma, mas dá mais trabalho a nível de organização e escrita porque, em princípio, será bastante mais longo, terá outro tipo de aproximação, é necessário situar o leitor, apresentar personagens… todo um leque de pormenores menos pontuais do que aqueles que existem num poema. A não ser que este último seja uma epopeia.

Expões mais de ti nos poemas ou nos contos?
Estava tentada a responder nos poemas, mas a verdade é que tal acontece mais nos contos. Talvez a forma seja mais subtil, no entanto neles temos personagens com ideologias e personalidades, mundos com leis, sentidos éticos e morais onde é impossível não reflectir um pouco da forma de ser do escritor. No final de contas, é um produto da sua consciência.

Há pouco, quando falámos do teu primeiro trabalho, mencionaste que antes de voltares a avançar para o formato romance” deverias “limar várias arestas”. Avaliando pela quantidade de contos teus já publicados, dirias que esse cenário está longe de acontecer? Ou há uma (ou mais) ideias de romance a quererem passar para o papel? Queres falar delas, se for esse o caso, ou preferes mantê-las em privado por enquanto?
Na verdade, tenho um romance começado, mais precisamente em “stand-by”. Como escritor, imagino que conheces a sensação de começar um trabalho e ao fim de algum tempo ficares com a ideia de que há ali algo que não funciona, um componente que devia ser mudado, mas não consegues perceber bem o que é. E já que falaste nisso, algumas perguntas atrás, é um trabalho em que a minha ideia era aplicar uma pitada do que aprendi na minha área de estudos.

No seguimento da pergunta anterior, tens alguma lista de projectos futuros a cumprir ou escreves à medida que as ideias vão surgindo?
Tenho uma lista de ideias, digamos, mas nada que me comprometa a cumprir. Se um dia tiver tempo e considere que valem a pena, pego-lhes e tento trabalhar com elas. Caso contrário, ficam no “banco de ideias”.

Como é que defines prioridades entre os vários projectos que tens em mãos?
Normalmente é por data, se houver uma. Caso contrário pego naquele que me dá mais gosto escrever no momento.

Qual das tuas histórias aconselharias como a mais representativa do teu trabalho?
Acho que cada uma tem a sua parte de representatividade. Contudo, a que acarinho mais é a noveleta “Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade”. Não digo que seja o meu melhor trabalho, mas é a história que me deixou mais “realizada” até hoje. Foi escrita para um projecto chamado “A Fantástica Literatura Queer”, e o facto de ter uma intenção mais ampla do que ser uma simples “história” dá-lhe outra significância. Mas claro, também sinto muito orgulho pelo “Coração de Corda” ter sido nomeado na categoria de Ficção Fantástica em Conto, dos Prémios Adamastor do Fantástico.

(E já agora…) Há alguma que lamentes ter escrito?
Absolutamente nada. Ou, pensando bem, talvez umas fanfics muito dúbias… mas já lá vão muitos anos, é passado!
Ao contrário do que muitos julgam, escrever não é nenhuma pêra doce. O que é que fazes quando, por mais que te esforces, não sai nada de jeito?
Por vezes insisto, o que pode dar bom ou mau resultado. Outras vezes vou simplesmente fazer outra coisa qualquer, em que os melhores candidatos são: ler ou ver anime.

Só fica a faltar a parte final que é uma mensagem de ti para os leitores. Tema livre, sem limite de caracteres. Desabafa, comenta, critica. O espaço é teu.
A arte de ler e escrever

É um processo que gera e transmite

Emoções naquilo que é vivo e Ser.

Por isso, sê leitor que sente e vive,

Sê escritor que mergulha ao ver

O que não existe, mas existe,

E toma as palavras, que o ter

Do seu conteúdo persiste

No processo de viver.

Um grande muito obrigado à Carina pela disponibilidade e paciência. Espero que tenham gostado desta entrevista. Daqui a duas semanas, não percam: um novo convidado.

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