Quem o diz não sou eu #4: Ana Filipa Ferreira

quemodiz4A minha convidada desta semana é uma jóia de moça. Alguém que não hesita em chamar os bois pelos nomes, ou pior ainda. Escritora, revisora, editora, blogger, designer, é óbvio que não sabe o que quer fazer da vida. E tem cabelo vermelho.
Aqui tendes Ana “Ruiba” Ferreira.

Olá, Ana. Queria começar por uma questão que é muitas vezes invocada por alguns autores como desculpa para não produzirem mais: a falta de tempo. Gostarias de ter mais tempo para escrever ou achas que não aproveitarias bem esse extra?
Eu sou a mestre do slackanço. Ia meter-me em projectos de certeza. Eu sou daquelas pessoas que se mete em tudo e depois sai porque dá em louca e depois mete-se em mais coisas e fica “How did this happen?”. Mas sim neste momento noto que queria ter tempo para escrever e tenho de fazer outras coisas e fico a pensar: bolas, queria escrever e tenho que fazer isto… Eu não tenho uma rotina quando escrevo, se me vier uma frase bonita à cabeça abro o word e escrevo. Trabalho muito à base de esforço mental (imaginar o que vou escrever) e a inspiração divina (que é sempre a melhor parte). Sou capaz de ficar com medo e não escrever nada durante meses e depois dar-me uma coisinha qualquer e escrever um texto em 2 horas.

Tens participado regularmente no Nanowrimo. (Já estamos em Dezembro mas, como diz o ditado, o Nano é quando o Homem quiser.) Quantos romances já tens na gaveta à conta disso? Irá algum deles conhecer outros olhos além dos teus?
Nenhum! Parece estranho, é porque é mesmo! Tenho montões de escritos na gaveta mas nenhum totalmente completo, acho que o máximo que consegui foi 85 páginas de uma fanfic do Orbias (já vem a malta toda do fandom cair-me em cima), mas apesar de tudo não está concluído. Embora eu participe no NanoWrimo sou uma eterna insatisfeita. Escrevo, escrevo mas detesto. E passo por essa fase de descontentamento. O ano passado consegui ultrapassar as 50k mas no final abominava a minha personagem e reescrevi muita coisa depois do Nanowrimo, especialmente a estrutura. Acho que só mesmo a meio de 2015 é que vão ver algo meu e não será em Português. Neste momento estou a reescrever um conto tradicional do Perrault com um twist medieval steampunk, mas está a ser escrito em inglês.

Um Capuchinho Vermelho contra um Lobo Mau a vapor?
Not really, mas podia ser! estou a reescrever o Riquete do tupete (yup não é nada conhecido), mas é um conto giríssimo sobre a beleza (ou a falta dela).

Da Terra para o espaço. És uma das tripulantes da nave Maria (do projecto “Comandante Serralves – Despojos de Guerra”). Aceitaste o convite sem hesitar ou pensaste primeiro se irias ter tempo para te envolveres a sério?
Eu sou um espírito livre: to infinity and beyond! Aceitei embora sempre disse ao Carlos que não era uma autora de FC. Ok escrevo steampunk e outros tipos de punk mas nunca Hard FC., mas acho que sempre disse que em princípio sim, que apoiaria sempre o projecto no que pudesse.

1452164_10152567611918912_2037734746_nÉs conhecida por ser brutalmente honesta (mas sem ofender) nas tuas críticas enquanto leitora e nos teus reparos enquanto revisora. A Ana autora é tão ou mais exigente consigo própria ou deixa passar uma falhazinha ou outra?
A Ana autora é uma chata! Tem imensa fata de segurança porque já sabe que vai levar na cabeça de leitores e por norma quanto mais críticos somos nas reviews mais na cabeça levamos quando publicamos algo. Não gosto muito disso. Eu sou uma pessoa enquanto blogger, uma pessoa diferente enquanto autora e uma diferente enquanto editora. E enquanto autora não há ninguém mais duro que eu própria. A Ana editora é uma querida, muito certeira e muito chata e os autores são muito possessivos em relação aos seus trabalhos. Eu nunca vi um conto como meu bebé. É um texto, fico triste por ver que se calhar há pessoas que não atingem algumas cenas que quis passar, mas penso: para a próxima faço melhor. Ainda não recebi uma crítica mesmo demolidora, mas também acho que ninguém se atreve a isso. Eu conheço a minha obra melhor que ninguém e posso ripostar. Tento não o fazer e afastar-me disso, mas ás vezes não dá.

Tens também experiência em dar aulas. É mais fácil controlar personagens fictícias ou alunos?
Personagens fictícias! De longe. Elas são muito bem mandadinhas, de vez em quando lá me saem um bocado do controlo mas é raro, agora os miúdos é o pesadelo total. Tirando os da faculdade, claro. Esses já são grandinhos e já consigo fazer coisas giras com eles. Os alunos mais novos perdem-se imenso tempo a discipliná-los (o básico dos básicos) e temos que relembrar sempre as regras. As minhas personagens sabem bem as regras que têm de seguir (ou não) e as consequências dos seus actos.

É público o teu descontentamento (usando um termo suave) para com as vanities, no entanto já participaste em antologias organizadas por algumas delas. Não achas contraditório ter uma posição pública contra esse tipo de empresas ao mesmo tempo que se trabalha com elas?
Bem não publiquei assim em tantas foram só duas e uma foi por erro nem sabia o que era uma vanity, a editora era nova não dizia nada no regulamento que se tinha de pagar e quando fomos aceites é que veio a continha de 1 exemplar pela modica quantia de 17€. Depois o segundo embora a Alfarroba seja vanity, ganhei 10 exemplares que os vendi e ganhei por volta de 80€. Não investi nada nem.um cêntimo e ganhei dinheiro com a venda de exemplares O conto foi corrigido por uma revisora e o tratamento que recebi foi semelhante a uma editora tradicional, por isso não dei a experiência como má. De 500 contos foram escolhidos 5 ou 6. Lá tive uma experiencia boa e uma menos boa.
Não tenho nada contra vanities desde que tenham um bom serviço, por exemplo revisão, edição, design de um profissional e distribuição simples. Se o autor paga e não recebe nada disto é um sistema fraudulento, o autor paga mas não recebe tratamento de editora, mas sim de gráfica

Mas são raras as vanities que fazem esse tipo de serviço. Pelo menos aquelas de que se ouve falar mais.
Sim por isso é que costumo manifestar-me de forma mais negativa.

Achas que é por falta de capacidade de resposta das editoras regulares que alguns autores voltam-se para opções como vanities ou edições de autor, ou será apenas por poderem ter a última palavra a dizer quanto aos vários aspectos do seu trabalho?
Ao início achava isso. Que os autores não recebiam resposta e por desespero iam a outro tipo. Hoje sei que não é assim. Poucos são os autores que sequer enviam para as editoras tradicionais, isto porque as vanities também se apresentam como editoras. Não há diferenciação. Nenhuma diz: se enviaram para aqui vão pagar X e as pessoas só quando recebem o e-mail com a conta é que dizem que sim ou não. Muitas das pessoas que enviam para estas editoras são ignorantes do mercado e nisso sim culpo as pessoas. Ser autor não é só escrever um livro que quer e publicá-lo. É preciso estar atento ao que se vende, às editoras do mercado, ao que as editoras publicam e apostam e ir nessa onda. Claro que se quiserem ser diferentes podem arriscar algo diferente. Hoje em dia as editoras portuguesas estão mais dispostas a publicar algo português. Escrever dá muito trabalho e o problema é que ainda não saiu da cabeça dos portugueses que escrever e publicar não pode ser só um sonho, tem que envolver dedicação e trabalho. No entanto, nenhum autor lembra-se que quando o seu produto está à venda deixa de ser totalmente dele e passa a ser do leitor. E esquecem-se que um livro tem de ter certos parâmetros (não ter erros/gralhas é o básico), mas como estão com a ideia do sonho e de ser os bebés, ficam ofendidos com as críticas mais directas. Um livro que está à venda é um produto é algo que pode ser comprado. Não compramos canecas com defeito, conseguimos logo ver que a caneca tem uma racha e preferimos deixar na loja. O mesmo com os livros, se se pega num livro e vê-se imensos erros, houve descuido do autor e da editora. As editoras demoram bastante a responder, mas depois de ler eu imensos manuscritos enviados, consigo entender porquê. Manuscritos com erros graves, histórias aborrecidas, sinopses com histórias cliché. É como se a maioria só escrevesse porque sim, porque apeteceu-lhes um dia escrever um livro e depois acham que pode ser publicado sem terem qualquer cuidado. Não vemos o autor ou escritor como profissão, mas sim como hobby. Existem, claro, bastantes autores portugueses que encaram a escrita com seriedade e trabalham para isso. Mas esses já estão a ser publicados pelas editoras (ou pelo menos foram contactados pelas editoras). Acho que quando eu falo deste assunto, especialmente aos autores das vanities, eles levam um bocado a mal, mas na verdade, não vejo nenhum autor tão “commited” na sua escrita como os anglo-americanos. Eles produzem imenso, contos, noveletas, oferecem as noveletas e contos aos leitores (e depois colocam tipo a $0.99 para quem quiser comprar). Não sei se os portugueses (leitores) comprariam uma noveleta de um autor português, mas quando vamos ao Kobo e procuramos por um autor português quantos contos ou noveletas vemos gratuitas? Não podemos ficar estagnados e acho que os autores conhecidos, publicados, não-publicados deveriam seguir outros mercados para ver o que se faz lá. Estamos uns 10 anos atrasados e com a internet e a auto-publicação digital já não há desculpas para estarmos “orgulhosamente sós”.

Ignoras os eventuais defeitos dos teus autores de eleição ou choras por dentro quando detectas algo que seria admissível num principiante? E já agora, quem são os teus autores de eleição?
Os meus autores de eleição já estão fora dessa liga, mas este ano sofri um “blow” quando a Vivi Anna que era uma das minhas autoras favoritas começou a escrever mais do mesmo. Ela começou por ser autopublicada e depois tornou-se bestseller e a Harlequin tem um contrato com ela (embora ela ainda autopublique coisas), mas este ano fui a ler coisas dela e já não é a mesma coisa. Este ano fiquei super viciada na Eve Langlais e a Megan Hart continua a encantar-nos com a sua literatura erótica mais modesta. E a Kate Pearce que conseguiu escrever o fim de uma duologia bem superior ao primeiro no paranormal. Neste momento tenho tantos autores que gosto e tantos que estou a descobrir e ler pela primeira vez que a minha lista está muito confusa. Mas a Annemarie Schwarzenbach, o Hemingway, a Angela Carter e Paul Auster. Depois as influências dependem do que escrevo. Se for fantasia urbana vou buscar influências a um pouco de tudo, a Shelly Laurenstone, a Langlais ensinou-me que as minhas personagens podem ser completamente passadas da cabeça. Para erótica continuo a ir buscar muito à Maria Teresa Horta e à Nancy Madore. FC é mais à Ursula le Guin. Depois de ler tanto autor é quase impossível eu só ter uma influência, mas desde que essa influência não se note muito, não me importo.

Quem olha para a tua estante no Goodreads constata que há uma inclinação para a literatura erótica. Esse é um género que tens também explorado como autora. Dirias que o que te atrai na literatura erótica enquanto leitora é o mesmo que te atrai enquanto autora?
Acho que já li mais erótica do que escrevi, mas no geral sim. No geral só quero ler um bom livro de erótica e faço experiências tanto na leitura quanto na escrita. Às vezes escrevo algo mais soft, por outras vezes algo mais forte. O que me interessa na erótica é mais do que ler boas cenas de sexo, é passar diversas mensagens e tipos de personagem, algo que também tento passar nos contos que escrevo.

Queres descobrir um pouco o véu ao que os teus leitores poderão esperar num futuro próximo, ou não assim tão próximo?
Neste momento estou então no projecto que falei no início. Conto continuar um manuscrito de fantasia urbana passado em Portugal, mais propriamente na minha terrinha. Isso a nível pessoal. A nível de edição e isso, estou a começar a rever a antologia “Limites do infinito” na Editoria Divergência e julgo que este ano vai ser calminho a nível de edição. Estou ainda a rever uns textos para o Projecto Adamastor e claro vou continuar a ler a fazer reviews no blogue Crónicas de uma leitora. Also a Tidy Friday vai voltar esta semana num formato novo, não só sobre livros e o mercado literário português, mas também sobre coisas do dia-a-dia que me enervam ou coisas que oiço na rua ou até mesmo assuntos da semana. Estou a tratar de encontrar um layout simples mas bonito.

Mensagem final para quem nos lê. Tema livre. Explana à vontade, Manda insultos, receitas de culinária. O que quiseres. Sem limite de caracteres. Desde que não publiques um manuscrito. A não ser que seja um manuscrito bom.
Uma mensagem… Aos leitores em geral: espero que tenham gostado da entrevista e de conhecer um outro lado de uma personagem que nem sempre tem boa fama (não entendo porquê, sou uma jóia de moça). O Natal está aí, por isso só peço paz e dinheirinho, se alguma editora me quiser adoptar, estou disponível! Sou uma “mecinha” muito prendada, faço um pouco de tudo. Aos autores: see guys, I am adorable and I don’t bite! Se precisarem sempre de alguma coisa, podem sempre contra com honestidade. It’s not much, mas ao menos é algo vindo do fundo do coração (nossa que bonito).

O meu obrigado à Ana Ferreira pela disponibilidade e paciência. O “Quem o diz não sou eu” vai entrar em período de ausência natalícia e regressa em Janeiro de 2015 com novos convidados. Até lá,

One thought on “Quem o diz não sou eu #4: Ana Filipa Ferreira

  1. Boa entrevista 😉 Agora percebo porque é que a Ana veio dizer no meu blog que íamos trabalhar juntos (Antologia “Limites do Infinito” !). E nunca é demais ver alguém a malhar nas vanities e a escrever/ler erótica sem problemas…

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