Quem o diz não sou eu #2: Carla M. Soares

quem-o-dizNascida em Moçâmedes, no Namibe, em 1971, é professora de Inglês e escritora do que bem lhe apetece. Publicou três romances (“Alma Rebelde”, “A Chama ao Vento” e, mais recentemente, “O Cavalheiro Inglês”) e escreveu outros tantos que, talvez um dia, virão a ser publicados. A convidada desta semana é a Carla M. Soares.

Em 2012 publicaste o teu primeiro romance, “Alma Rebelde”, através da Porto Editora. Foi mesmo o primeiro romance ou há um maço de folhas no fundo de uma gaveta que nunca verá a luz do dia?
Não foi o primeiro romance, embora tenho sido o primeiro do género. Há vários maços de folhas – ou ficheiros de computador – com romances de fantasia que poderão nunca ver a luz do dia. Estão em diferentes estados de produção, ou talvez deva dizer de revisão, mas há um ou dois que gostaria de publicar um dia.
O Alma foi o primeiro de época, um romance ainda inexperiente no género, mas que vai ocupar sempre esse lugar especial que se reserva ao primeiro.

O primeiro é sempre o primeiro.
O primeiro publicado. O meu primeiro-primeiro é de fantasia, chama-se “A Dama do Rio” e está à espera de revisão…

Um dos tais?
Sim.

 9789720043375Depois da edição em papel, experimentaste o e-book. Foi uma opção forçada ou voluntária?
Um pouco de cada, mas creio que, no fundo, é sempre voluntária. Tive sempre a opção de dizer que não, mas achei que, porque leio em e-book, talvez fosse uma experiência interessante e permitia-me continuar com a Porto Editora, que é uma excelente editora. Não o fiz sem algum receio, até porque é um mercado muito novo em Portugal, ainda insipiente, e o livro que foi publicado com a Coolbooks é um dos meus favoritos. Acabei por verificar que, embora seja uma óptima opção para o futuro, ainda não é para o meu presente, e procurei regressar ao papel o quanto antes.
Não tive qualquer problema, nem com a Porto Editora, nem com a Coolbooks, é realmente uma opção pessoal, de quem ainda não está pronto para abandonar por completo a sensação de ter o livro entre as mãos, assiná-lo, oferecê-lo…

É bom saber dessa tua determinação. Em particular porque, há já algum tempo, lembro-me de ter lido um desabafo teu que dava a entender uma certa desistência da escrita. Ou da escrita publicada, melhor dizendo. O que foi que te ajudou a remediar esse desânimo? (Ou tudo não passou de um “momento mau”?)
Desistir da escrita não seria possível para mim, continuarei sempre a escrever, mesmo que volte a fazê-lo só para os amigos. Da publicação, nunca se sabe. Estão envolvidos muitos factores, nem todos dependentes de mim. Creio que todos temos momentos maus, a escrita não é um exercício fácil e, para quem ainda tenta chegar ao público, há realmente fases em que a dúvida é maior do que a vontade de persistir. Felizmente ainda me sobrou alguma vontade, avancei, os ventos sopraram de feição e o ânimo regressou.

Logo após o romance histórico, exploraste territórios mais no campo da fantasia em “A Grande Mão”. Esse romance está listado no Goodreads, mas onde é que os leitores o podem encontrar?
Esse romance é anterior aos romances publicados e é um dos dois com os quais ainda gostaria de fazer alguma coisa. Não sei se acontecerá. Esteve disponível há já algum tempo para download, para uma espécie de leitura beta, com a qual obtive algum feedback simpático. Neste momento, está no Goodreads porque não é possível retirá-lo, mas não está disponível para leitura. Quem sabe um dia..

A tua vida neste momento gira sobretudo em torno da escrita ou dedicas-te também à actividade docente?
Diria que neste momento a minha vida gira sobretudo em torno da actividade docente e faço uma espécie de milagre de roubar uns bocadinhos para a escrita…
Em termos de importância, estão no mesmo patamar; de prazer… a escrita está sempre primeiro. Era delicioso poder fazer a vida girar em torno da escrita. Creio que para quem escreve, é inevitável sonhar com isso.

Aceitaste o Acordo Ortográfico mais depressa enquanto professora ou enquanto autora? Ou essa aceitação é algo derivado das circunstâncias?
Como professora, não tive outro remédio senão aceitar o acordo. Embora nas aulas me seja indiferente (ensino inglês) há uma série de documentação escrita sempre com o acordo. Como autora, custa-me. Creio que a Porto Editora aplica em geral o acordo, a Marcador perguntou-me o que preferia e preferi sem ele… O problema é que, entre acordo e não acordo, ando a colocar acentos onde nunca antes coloquei e a dar erros que não dava. Ou seja, dou muito mais trabalho aos editores e revisores!

achamaoventoOs teus alunos lêem-te?
Vários alunos meus – ou alunas – leram o Alma Rebelde, mas a maioria são demasiado novos para, por exemplo, o “A Chama ao Vento”. São alunos entre os 12 e os 14.

Dos que leram, eles preferem a Carla Soares autora ou a Carla Soares professora?
Essa é uma excelente pergunta… para a qual não tenho resposta. Sei que os que leram gostaram, mas se preferem a autora à professora, ou se gostam da professora… pois, não sei se mo diriam se não gostassem!

Já alguma vez, a meio de um teste, com a turma toda sossegada, tiveste vontade de puxar do caderninho e escrever qualquer coisa? Ou nem pensas sequer em misturar as coisas?
Já aconteceu, sim, acontece em muitos momentos e em lugares em que não me é possível escrever. Ideias no duche que depois me fogem, à entrada da sala, quando logo a seguir sou completamente absorvida pela aula… É muito frequente.
Em geral, uso o computador para registar essas ideias, quando não me esqueço delas, embora tenha, de facto, um caderno que agora me forço a utilizar, para não me esquecer de nomes, datas, detalhes.

Disciplinas-te a não ser criativa quando as circunstâncias não são propícias?
Mas que pergunta… Não funciona bem assim , pois não? Vamos por partes. Quando os alunos estão ali mesmo à minha frente não me é possível alhear-me. Noutras circunstâncias… depende. A escrita narrativa exige tempo e concentração, o que não quer dizer que não vá por vezes a conduzir a pensar na história, a traçar rumos possíveis… A única resposta possível é, portanto: depende.
O que quero dizer é que, embora eu trabalhe em qualquer parte, é mais difícil fazê-lo se tiver pessoas a dirigir-se a mim com frequência, como acontece no meu local de trabalho, mesmo sem ser aula.
Porque até a criatividade exige trabalho.
A excepção são, claro, os poemas, mas esses estão quase todos no blogue, são coisas de momento.

Faz falta um interruptor às vezes, não é?
Com o cansaço com que tantas vezes ando, gostaria de poder usá-lo para me ligar…

O entusiasmo perante uma história (seja ela nova ou uma que esteja no “pico”) não chega para gerar essa energia?
Sim, é verdade que sim, embora por vezes outros factores tornem difícil o “nascimento” dessa história. Mas depois de arrancar, sim, sem dúvida. Estou a começar uma agora, na fase do esboço e pesquisa, e já o sinto…

Outro romance de época? Ou uma incursão na fantasia?
Por acaso começa a apetecer-me voltar à fantasia… mas não, é de época e, se tudo correr bem, até estará um pouco relacionado com este que vai sair agora. Ando a pesquisar a gripe espanhola…

Sei que Portugal não é um país ideal para uma “aventura” destas, mas alguma vez pensaste em largar tudo e fazer da escrita o teu “bread and butter”?
Esse é de certeza o sonho de qualquer escritor que ainda não possa dar-se a esse luxo, mas com família, dificilmente. Há prioridades, entre as quais a alimentação e conforto dos meus filhos, o que quer dizer que o sucesso teria que vir primeiro, a “aventura” depois. Claro que o futuro é uma incógnita…

1Em relação ao futuro, tens um livro novo já nas livrarias. Acreditas que “O Cavalheiro Inglês” poderá ajudar a esclarecer essa “incógnita”?
Seria bonito, sim… Mas não creio. Não por falta de confiança no livro, que espero mesmo que seja um sucesso, tem ingredientes para isso, mas porque seriam precisos vários sucessos para correr esse risco.

Queres avançar algo sobre a história para quem tiver preguiça de ler a sinopse?
É um romance de época. Passado em Lisboa em 1892-93, no pós-Ultimato, envolve uma jovem determinada de uma família falida, um irmão irreverente, um péssimo noivo, um inglês apaixonado, anarquistas, um assassinato e duas histórias de amor atrapalhadas…

Lembro-me de mencionares esse título aqui há tempos. Não tiveste isso em beta-reading com alguns leitores?
Sim. A leitura beta é uma ajuda para perceber as reações dos leitores – desde que seja honesta, feita por pessoas de confiança e aponte as fraquezas do texto. Entretanto a Marcador quis publicar. Esteve para ter outro título, mas felizmente voltou ao início.

Em “O Cavalheiro Inglês”, o Ultimato Inglês tem um papel predominante. Há pouco dizias que andas a pesquisar sobre a gripe espanhola. Se eu atirar um palpite “ao calhas” e dizer que a próxima história vai meter o Sidónio Pais, I Guerra Mundial e a Batalha de La Lys, estarei muito distante da verdade?
O Ultimato é fundamental como enquadramento, mas a história é posterior (dois anos) e como referi não pretendo narrar nenhum dos grandes momentos históricos, mas histórias de cariz mais pessoal que reflictam bem a época, dêem a conhecê-la. os valores, os interesses, as lutas… As figuras conhecidas aparecem, quando muito, enquanto figurantes, personagens menores. No fundo, tudo é ficção. A que comecei agora a pesquisar está ainda muito insípida para determinar em que se centrará, mas vai ser nos meses após La Lys, no fim da Segunda Guerra Mundial e na agitação que tanto a situação politica como a terrível Gripe Espanhola causaram em 1918… Isto, havendo tempo para terminar as pesquisas, fazer um esboço da história e… bom, escrevê-la.

Do que já li teu, as tuas histórias costumam centrar-se muito em micro-galáxias em universos conturbados. Ultimato Inglês, gripe espanhola… Um romance de época pode sê-lo sem fazer referência a factos contemporâneos?
As minhas histórias são sobre pessoas em momentos históricos que podem ser conturbados, sim, e interessantes, embora não seja obrigatório que assim seja. Não procuro exactamente a informação histórica, mas a integração da narrativa num certo momento, o estabelecimento de um quadro de fundo que não seja anacrónico, que seja pertinente, verosimilhante, historicamente correcto, ou pelo menos assim tento com o pouco tempo de que disponho, e, se possível, que acrescente alguma coisa ao conhecimento que as pessoas têm da época. Mas o essencial são, sem dúvida, as pessoas e as suas histórias… o que faz com que procure formas dinâmicas e pouco descritivas de inserir as informações históricas. Por exemplo, o Ultimato é absolutamente essencial ao Cavalheiro, bem como o surgimento de grupos anarquistas, a agitação republicana… mas não há nenhum parágrafo a dizer: No ano de X, os ingleses fizeram Y…, ou uma explicação exaustiva sobre a anarquia. E, no entanto, a informação está lá, em diálogos, apontamentos… mas também se sabe onde se passeava e lanchava em Lisboa…

Exacto. Os grandes eventos ajudam a enquadrar, mas não são o móbil principal.
Sim. é isso.

Na tua opinião, existe um período mínimo entre a época em que se está e a época em que um romance se passa para este ser considerado de época? Exemplo hipotético: um romance passado em 2010 pode ser um romance de época?
Um romance de época tem sempre uma componente histórica, e é preciso algum distanciamento para se ser capaz de enquadrar um determinado momento e ter sobre ele alguma compreensão. E também é preciso que existam diferenças culturais e de hábitos suficientes para justificar que se fale de “outra época”. Fazemos um retrato dela porque é diferente da nossa… O que mudou de 2010 para cá de tão significativo, que grande diferença há no nosso modo de vida que obrigue a um certo enquadramento? O romance decorre sem essa necessidade, reconhecemo-nos instantaneamente nele (se decorrer numa cultura muito diferente, é outra coisa, mas nesse caso a questão não é o tempo, mas o espaço). Um romance nesse ano seria, sem dúvida, contemporâneo. No 25 de Abril? Talvez, embora ainda hesitasse em rotulá-lo, por estar muito presente em muitos de nós, na nossa memória actual. Em resumo, para mim é preciso desfasamento temporal, sim.

Estás com uma nova editora, a Marcador. Que diferenças maiores podes apontar entre uma casa e outra?
Acho que ainda é cedo para responder a essa pergunta. O processo com a Marcador foi, por motivos variados, extremamente rápido, o que obrigou a uma maior proximidade, mas ambas as editoras me têm tratado, em termos pessoais, de forma correcta. As diferenças que possam advir de políticas e opções editoriais das duas empresas só conhecerei com o tempo – para já, fico feliz com a decisão da Marcador e com o regresso ao papel… O digital, sendo provavelmente o futuro, não é ainda o meu presente. Ainda me agrada o objecto que posso assinar, oferecer, ter entre as mãos.

CarlaSoaresTens um processo de escrita fixo ou gostas de variar e experimentar novas técnicas?
Não tenho um processo de escrita definido e deliberado, do tipo planear primeiro, depois pesquisar, depois escrever, depois… depois… Já me aconteceu fazer assim, mas acabei sempre por fugir a o que tinha planeado e fazer coisas completamente diferentes… Aliás, acho que nunca um texto acabado correspondeu à intenção inicial. Isso acontece porque, a partir de certo momento, a escrita segue a lógica da história e das personagens, elas ganham vida e acabam por quase conduzir os acontecimentos. Há pesquisa inicial, que é inevitável em histórias de época e por vezes até ajuda a definir alguns rumos, mas tenho sempre que ir pesquisando novas coisas, pequenos detalhes – que navios saíram de Portugal para Nova Iorque em Janeiro de 1893, por exemplo. E estou constantemente a rever, a alterar, o que faria ad eternum se a certa altura os livros não fossem “encerrados” e publicados. Nunca nada está perfeito, e muitas vezes parece-me tudo tremendamente imperfeito.

A minha pergunta implicava tudo o que respondeste, embora por “técnicas” referia-me a também a fazeres planificações, uso de cartões, etc.
Então vamos lá às técnicas, porque a resposta é simples: não, não uso. Uso um caderno onde vou anotando o que me arrisco a esquecer (nomes, datas, factos) porque por vezes sou obrigada, por motivos profissionais, a fazer pausas longas entre sessões de escrita.

Há pouco dizias que por vezes tens ideias para as tuas histórias em locais ou momentos pouco apropriados. Como estar prestes a entrar numa sala de aula, por exemplo. Alguma vez pensaste em dar meia volta, dizer que te esqueceste do livro de ponto ou assim e ir até à sala de professores apontar essa ideia antes que ela sumisse?
Olha, é uma ideia… mas não. Uma vez que entre em modo professora, não há como voltar atrás. De qualquer modo, acho sempre que, se a ideia for mesmo boa, válida e tal, há de persistir nalgum cantinho do cérebro e voltar num momento mais adequado.

Mas às vezes custa.
O pior é quando é algum título ou um nome, uma frase, mas isso já cheguei a anotar rapidamente, antes de começar a aula ou a condução…

Além de todos estes projectos, és também uma das participantes da colectânea “O Desassossego da Liberdade”, organizado pelo Blog Morrighan e pela Livros de Ontem. O conto para ti é um bicho completamente diferente do romance, ou há semelhanças?
É um bicho diferente, de facto, com o qual tenho pouca familiaridade e pouco à vontade. Por um lado, tenho a impressão de que é pouco para contar a história à vontade, por outro, permite-me um tom diferente, um pouco mais poético e ao mesmo tempo mais duro do que o romance. Confesso que escrevi pouquíssimos contos, mas creio que escreverei mais no futuro, comecei a gostar da experiência.

E fazes parte também do Colectivo NAU. Que é uma espécie de sociedade secreta que visa tomar conta disto tudo. É verdade?
De tudo, e ontem!| Nah. O NAU é, por enquanto, um projecto a dar os primeiros passos, ainda hesitantes, um conjunto de novos autores de estilos muito variados que se apoiam mutuamente e partilham o mesmo amor pela literatura. Há projectos a médio/longo prazo, mas estão ainda em semente… e sofrem com os nossos constrangimentos pessoais, porque nem sempre é fácil reunir oito autores. O conjunto é excelente, cada um no seu género, há que ler para confirmar. E se quiserem conhecer um novo projecto NAU, espreitem o Das Letras a cada 15 dias a partir de 15 de Dezembro.

Portanto, pretendem exercer influência no mundo através da literatura, mas não ao ponto de o dominar. Por falar em influência (e repetindo a palavra pela terceira vez nesta pergunta), quem são as tuas influências literárias?
Nesta resposta vou cair sempre no tradicional, porque a minha formação é literária, estudei muitos autores na faculdade. Depois disso descobri muitos outros, como Tolkien, que na altura não era canónico e mesmo agora não sei se será… A verdade é que sempre li muito e tive imensos autores que de uma forma ou de outra me ensinaram muito, mas fico completamente em branco perante este tipo de pergunta – é o mesmo se me pedem favoritos!

Já algum autor te indicou como referência?
Não faço ideia. Eu diria que não, pelo menos publicamente, mas na verdade não sei.

Da minha parte está tudo. Tens alguma última coisa a dizer antes de te convidar a sair?
Obrigada? Sim, isso. Mais? Pode ser. Para os que escrevem, honestidade e persistência. Honestidade para consigo mesmo, para conhecer os seus limites e o que verdadeiramente se quer escrever. Persistência em tudo, no acto de escrever, porque há sempre espaço para melhorar, e no percurso, porque o percurso de um escritor é, pelo menos neste início, cheio de obstáculos… Para o leitor, que leia muito, leia tudo o quem lhe der prazer. O acto de ler pode e deve ser muitas coisas, mas não faz nenhum sentido se não for, em todas elas, prazer.

 O prazer foi todo meu, Carla. Obrigado mais uma vez. E boa sorte.

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