Quem o diz não sou eu #1: IMAGINAUTA

quem o diz 1 - imaginautaCarlos Silva e Vítor Frazão são os dois nomes responsáveis pela Imaginauta. Uma iniciativa que pretende abarcar várias plataformas, entre elas a literatura, a música e os jogos. O seu cartão de visita é uma colectânea de contos que tem como título “Comandante Serralves – Despojos de Guerra” e que contou com a participação de vários autores: Ana Filipa Ferreira, Inês Montenegro, Joel Puga, Rui Leite, Carlos Silva, e Vítor Frazão. Nesta entrevista irei falar com os dois mentores do projecto sobre o processo de criação dessa obra, apurar a receptividade dos leitores e perscrutar novos trabalhos. Fiquem para ler.

Quanto tempo demorou entre a fundação da Imaginauta e a conclusão do seu primeiro trabalho, “Comandante Serralves”?
VF: Pouco mais de um ano.

Porquê Serralves? É um nome como qualquer outro, ou tem um significado?
CS: É um nome como outro qualquer. Surgiu de repente.

A variedade de experiências de cada um dos elementos do projecto certamente contribuiu para a diversidade das histórias. Em algum momento consideraram que essa diversidade poderia pôr em causa a coesão do projecto?
CS: Claro que sim. As primeiras resenhas que obtivemos são testemunhas disso. Há histórias em que o Serralves é mais um herói de acção, outras em que a situação puxa o leitor mais para uma reflexão da realidade em que as personagens vivem, outras ainda em que são revelados pormenores do universo ficcional.

Vítor, concordas com o que o Carlos disse?
VF: Uma vez que este volume de Serralves tem um tema subentendido pelo título, não. Noutro potencial volume, com uma história central diferente, sim, correríamos esse risco. Não queremos subestimar os leitores, eles são inteligentes o suficiente para verem as ligações sem que tenhamos de torná-las demasiado óbvias.
CS: Claro que essa diversidade é sempre um pau de dois bicos e é preciso bastante atenção para não se deturpar o Mundo criado. De qualquer das maneiras, penso que criámos um bom equilíbrio entre o que cada autor tinha para dar (afinal, cada um deles está a construir mais um pouco, não apenas a escrever uma fanfiction) e uma coerência interna.

Qual foi o processo de selecção que usaram para determinar com que autores iriam trabalhar no Serralves? serralves-poster-a5
CS: Basicamente, foram escolhidos autores que a Imaginauta reconhece como tendo qualidade e que pudessem dar uma perspectiva diferente à histórias que queríamos contar.
VF: Queríamos “vozes” que fossem diferentes das nossas para dar diversidade à obra. A partir daí foi jogar com quem sabíamos estar disponível e aberto à ideia.

Há algum nome do panorama literário nacional ou (abrindo o leque de opções) de algum PLOP que gostariam de convidar para futuros projectos?
CS: Não temos nenhum autor específico em mira, no entanto gostaríamos que autores mais experientes decidissem agarrar o desafio de escrever o Serralves.
VF: Para já, mais importante que indicá-lo, é lembrar que estamos sempre abertos a colaborações. Considerem-se desafiados.

Como se conciliam tantas vontades e estilos numa única obra? Há uma aproximação calculada? Uma cedência de parte a parte?
VF: Um dos motivos para o projecto foi ver como esses estilos diferentes permitiriam outras perspectivas do mesmo universo base, por isso não faria sentido não existirem cedências de parte a parte.
CS: A própria questão do Serralves ganhar as memórias do corpo que ocupa, permite plasticidade aos autores de dar novas facetas ao Comandante, sem nunca trair a personagem, claro. O processo de escrita do livro foi muito dinâmico e divertido, em que os contos se foram influenciando mutuamente.
VF: Em várias ocasiões elementos introduzidos em contos mais recentes serviram de influência para alterar os mais antigos. No final acabámos por criar aquilo que queríamos, contos que valem por si só, mas quando metidos em conjunto revelavam mais sobre o universo de Serralves.
CS: No fundo, o importante foi o que tentámos garantir no início do projecto: qual o tom da obra, qual o Mundo sobre o qual queríamos que fosse escrito. Enfim, quem é o Serralves e qual o seu contexto.

Vocês demonstram grande abertura à contribuição de fãs para o universo Serralves (foi inclusive editado um EP inspirado nessas aventuras). Isso é um convite à fanfiction ou o cânone que vocês determinaram é para ser seguido à risca?
CS: O cânone está ainda em construção e evolução, pelo que qualquer contribuição pode vir a tornar-se cânone. Nada nos daria mais prazer de ver surgir autores a escrever dentro do universo que apresentámos e, em diálogo com a Imaginauta, expandir um pouco mais este Mundo.
VF: É um convite à fanfiction. Claro que existem certos elementos do world-building que gostaríamos que fossem respeitados pelo simples facto de acreditarmos que fortalecerá os trabalhos como um todo, mas não adianta partilhar os brinquedos se não deixarmos cada um brincar ao seu jeito.
CS: Uma fanfiction pode dar origem a uma história cânone. Costumo dizer, meio na brincadeira, que o Serralves é open source.

A nave está em viagem. Qual será o próximo pouso? Mais aventuras do Serralves ou algo completamente diferente?
CS: Os radares da Imaginauta apontam para muitos planetas com bons potenciais de gerar vida. É preciso preparar a viagem e escolher bem o destino, para não esgotar os recursos cedo de mais. De qualquer maneira, podem continuar a esperar coisas da Imaginauta. Coisas fixes, entusiasmantes, diferentes, cheias de garra. Quanto ao Serralves, o projecto está agora numa fase de expansão para outros meios. Estamos em contactos com ilustradores, designers de jogos, etc… No entanto, novas histórias do Serralves estão no nosso horizonte de eventos.
VF: Neste momento já estamos pousados em algo completamente diferente com o a “Operação Livro no Sapatinho”.

Isso parece interessante. Querem falar um pouco mais dessa “operação”?
VF: A “Operação Livro no Sapatinho” é essencialmente uma campanha, nas redes sociais e não só, da promoção da leitura e do livro como a grande prenda de Natal. Se quiserem saber como participar: http://imaginauta.net/2014/11/01/operacao-livros-no-sapatinho/

banner-3Há uma história concreta para contar com o Serralves ou é apenas um “filão” que tencionam explorar enquanto for interessante?
VF: As duas realidades não são mutuamente exclusivas. Para já o importante é garantir que cada volume do Serralves, quer sejam dois ou duzentos, funcione por si só, dando tudo o que o leitor precisa sem requerer leituras prévias, para não cairmos na tendência de ter uma colecção colossal que só irá interessar a um grupo progressivamente mais pequeno de leitores.
CS: Há várias histórias concretas a contar com o Serralves, algumas delas que ainda não sabemos, porque estão na mente dos futuros colaboradores.
VF: Além disto, tendo em conta que um dos nossos principais interesses é o intercâmbio com outros artistas, autores, etc, não faria sentido sermos demasiado rígidos naquele que acreditamos ser a linha narrativa a seguir. Ela de facto existe, mas não está written in stone.
CS: Neste momento, a Imaginauta tem uma cronologia (com muito espaço para criação) e já pensámos até em algumas histórias para o futuro. No entanto, tudo depende da aceitação do público e caso este mostre interesse ou não em ler mais da personagem e do seu Mundo.

Estiveram presentes na mais recente edição do Fórum Fantástico. Como decorreu a vossa apresentação lá?
CS: Penso que correu bastante bem. Conseguimos despertar o interesse e transmitir a nossa vontade e isso é sempre bom.
VF: O público mostrou-se interessado e isso é o mais importante.

Como tem sido a reacção do público aos vossos projectos?
VF: Até agora o feedback tem sido maioritariamente positivo e o que não foi conseguimos compreender a motivação.
CS: Não nos vamos encostar à sombra da bananeira. Vamos continuar a trabalhar para melhorar.

Consideram avançar para formatos maiores, tipo novela, ou mesmo romance, ou o formato conto é aquele que acham que resulta melhor?
VF: Conto é de facto um dos melhores formatos para narrar FC, senão o melhor, contudo acho que não nos devemos limitar, do mesmo modo como não pretendemos trabalhar apenas com um tipo de media. Dependerá de narrativa para narrativa e de projecto para projecto.
CS: Pessoalmente, acho que ambos os formatos são interessantes para trabalhar, mas a Imaginauta não é uma editora e já há mais projectos relacionados com literatura que queremos fazer.
VF: O Carlos acusa-me muitas vezes de ter uma “mentalidade virada para o romance” e o meu conto é o mais extenso de “Comandante Serralves – Despojos de Guerra”, por isso sim, formatos maiores são definitivamente uma possibilidade.

Não esquecendo o prazer que deve ter sido concretizar este projecto (bem como as dores de cabeça, discussões, contratempos, etc.), publicar um livro por conta própria é sempre dispendioso. Que estratégias usaram ou planeiam vir a usar para assegurar que recuperam o investimento feito? Ou não têm isso como prioridade?
CS: Como a Imaginauta não foi criada por um milionário benemérito não perder dinheiro é uma preocupação nossa.
VF: É uma prioridade apenas por dois motivos: certificar que não temos dívidas que possam impedir futuros projectos e garantir que podemos dar algo aos artistas. É verdade, os lucros são irrisórios, ainda mais quando divididos, contudo achamos importante partilhá-los com quem é de direito.
CS: Uma das coisas que fizemos foi uma edição pequena e tentámos contactar possíveis interessados para ter uma ideia de quantos seriam vendidos (fazendo uma pré-venda com um preço menor). Tentámos lançar o livro ao preço mais baixo possível. Temos a noção que foi uma estratégia que funcionou por sermos pequenos e que em grande escala seria impossível.

Venderiam os direitos de autor e de exploração do universo Serralves a um investidor?
VF: Fazê-lo iria matar o espírito open source que tem neste momento.

O projecto resistirá se um de vocês resolver sair e dar prioridade aos seus próprios projectos?
CS: É muito cedo para falar em fins, quando ainda estamos no início.

Meus caros, foi um prazer ter estado à conversa convosco. Querem dizer alguma coisa antes de vos mandar embora?
CS: Espero que todos continuem a acompanhar e a apoiar a Imaginauta. Leiam o Serralves, participem na Operação Livro no Sapatinho, escrevam-nos a dar ideias para futuros projectos. Da nossa parte, prometemos melhorar a cada dia.
VF: Continuem a apoiar-nos em projectos como OLS, Comandante Serralves, etc, e, mais importante desafiem-nos para outros.

Um grande muito obrigado ao Carlos e ao Vítor por terem sido as cobaias desta primeira experiência. O próximo será melhor e o outro a seguir melhor ainda. Espero que tenham achado a entrevista interessante ao ponto de irem espreitar a obra destes autores, mas não tanto que percam o interesse na minha. Há que ter noção das prioridades.

Pistas para a identidade do convidado da próxima semana começarão a ser reveladas a partir de segunda-feira. Fiquem atentos.

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