A Imagem: Um Excerto

«Várias vezes pensara em fugir, mas presa como estava, era difícil fazer muito mais do que pensar. Às vezes gritava de raiva, outras de frustração. Nunca chorava. Quando tudo parecia ficar insuportável, fingia que não era ali que estava, que aquilo era só um sonho, e tentava analisar as coisas de uma perspectiva mais afastada. Imaginava que era uma agente, daquelas que apareciam nas séries de televisão que costumava ver, a analisar um rapto, e agrupava os elementos de que dispunha para tentar perceber o que acontecera.

A primeira conclusão era óbvia. O homem que a mantinha ali presa era um desconhecido para ela. Já o mesmo não se podia dizer do homem que a atraíra até ali.

Tal como as outras raparigas do seu grupo, Nádia estava na idade de correr riscos, de experimentar o proibido. As recomendações dos pais sobre conversas online e encontros com estranhos eram como murmúrios que as histórias muito detalhadas das suas amigas facilmente colocavam em segundo plano. Não era uma questão de ser mais ou menos inconsciente, ou mais ou menos responsável. Era apenas uma questão de não ser a única no grupo a não tê-lo feito.

No entanto, apesar de querer seguir em frente com esse desafio, prometeu a si mesma que não o faria com qualquer um. Se era para ser, ao menos que fosse com alguém como de jeito.

O candidato ideal fora encontrado via redes sociais e apresentara-se como um jovem simpático, um pouco mais velho que ela, mas não muito, divertido, carinhoso e determinado. Em mensagens trocadas em privado, dissera que não era o homem perfeito, porque não havia homens perfeitos.

Quando iniciara a sua busca pelo parceiro perfeito, Nádia estabelecera algumas regras para se proteger de eventuais perigos. Afinal de contas, aceitar um desafio perigoso não era o mesmo que não tomar nenhumas precauções. Das várias regras assumidas, a primeira era a mais importante – local de encontro sempre num espaço público, bem frequentado de preferência – e foi logo a primeira a ser esquecida. Ou melhor, a ser desconsiderada porque não se justificava. Tinha a certeza que ele nunca lhe faria mal.

O problema era que André, o tal homem perfeito, não existia. Não apenas no sentido figurado que ele próprio dizia não existir, mas no sentido real em que não existia mesmo. A pessoa que falara com ela horas a fio era uma personalidade fabricada apenas com o propósito de atraí-la para uma armadilha.»

Se não for pedir muito, deixe a sua opinião

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s