A Imagem: Um Excerto

«Esquecendo-se que estava num carro oscilando à beira de um precipício, Lucas jogou-se para cima do homem. A redistribuição de pesos fez o carro inclinar-se perigosamente para a frente.

“Eu não tenho preocupações com a morte. E tu?”

Lucas voltou a largar o homem e o carro regressou à sua posição inicial.

Como se não tivesse acontecido nada, o homem continuou. “Podem parecer iguais, mas se os observarmos a nível atómico, não existem dois objectos iguais. E o mesmo princípio é aplicável ao tempo. Mesmo quando aquele que observa não consegue influenciar aquele que tem o domínio, não existem dois eventos iguais. Há sempre um elemento dissonante. Calculo que as minhas palavras não façam muito sentido para ti, mas para quem mais está a ouvir são fundamentais.”

“Não está aqui mais ninguém.”

O homem inclinou-se para Lucas, pôs-lhe as mãos nos ombros, olhou-o bem nos olhos e falou, não para ele, mas para alguém dentro dele.

“No primeiro piso está quem tu precisas de encontrar.”

Lucas fechou os olhos e quando os abriu estava de novo à beira da ribanceira, pronto para se livrar do corpo de Vanessa.

Como um boneco preso a uma rotina à qual não conseguia fugir, estava prestes a agir exactamente da mesma maneira, só que desta vez conseguiu parar

Nada se repete, tudo é novo.

Olhou bem para ela e decidiu verificar-lhe de novo a pulsação. Tocou-lhe com a ponta dos dedos no pescoço e esse leve contacto fez com que a separação ocorresse.

O espírito do Lucas futuro abandonou o seu corpo no passado, regressou ao seu corpo adormecido junto à grande figueira e despertou. Ao acordar, o cenário à sua volta dissolveu-se e ele viu-se de novo na cave.

A prisioneira estava adormecida. Achou melhor não arriscar tocar nela. Apalpou-se em busca de mazelas e não encontrou nada. Pensou no que o velho lhe dissera e decidiu que tinha coisas mais importantes e urgentes com que se preocupar.

Tentando manter-se calmo, arrumou as coisas e regressou ao piso de cima em passo lento. A tareia podia ter sido só um sonho, mas o corpo doía-lhe como se tivesse sido real.»

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