A Imagem: Excerto

«Aproximou-se dela, agachou-se e tocou-lhe no ombro.

Quando deu por si, estava sozinho numa extensa planície árida e sem vida. O céu azul e o sol fulgurante pareciam presságios de um lindo dia que não seria apreciado por ninguém. Ao longe avistou a figueira gigante, com os pássaros mortos nos seus ramos.

Ficou petrificado, sem saber o que fazer. Não era medo que sentia: era atracção, uma atracção inexplicável, quase irresistível, que aquela árvore morta exercia sobre ele. Sentiu-se irritado por mais aquele elemento manipulativo. Tudo o que queria era perceber porque é que aquilo lhe estava a acontecer. Porquê a ele? Seria uma punição pelos seus actos? Que um dia viria a ser castigado não tinha dúvidas, mas não assim. Por muito irritante, estranha e incómoda que aquela situação estivesse a ser, estava longe de ser uma punição.

Olhou para as suas roupas. Em vez da camisa, calças de ganga e ténis que costumava usar, vestia um hábito castanho de tecido velho e odor desagradável. Ao reconhecer aquelas vestes, ficou aflito e arregaçou as mangas para ver como estavam as suas mãos.

Normais. Sem vestígios de decomposição. Ainda.

Suspirou de alívio e tornou a baixar a manga.

Não conseguindo resistir ao apelo que a figueira morta exercia nele, caminhou até ela, esperando que, a cada passo que dava, as coisas passassem a fazer mais sentido.

O azul do céu deu lugar às tonalidades próprias do crepúsculo, mas o Sol continuou brilhante. A luz do dia e o princípio da noite unidos num encontro acreditado impossível. Alheio às regras da lógica que estava a violar, o evento decorria com naturalidade.

Lucas sentia-se cada vez mais fraco, como se aquela figueira lhe drenasse a sua energia vital. No entanto, essa perda de força não fazia diminuir a atracção que sentia. Antes pelo contrário. Prestes a chegar à árvore, ouviu qualquer coisa – algo a ser rasgado – à sua esquerda e olhou nessa direcção.

Uma brecha surgira no espaço à sua frente: uma janela para outro lugar. Conseguia ver qualquer coisa do que estava no outro lado, mas muito pouco. À medida que avançava para ver melhor, o buraco aumentava. O que estava do outro lado deixou-o estarrecido.

Para lá do rasgão, o seu eu passado contemplava a imagem e a figura icónica que ele agora representava.

A vontade de avisar o seu eu passado, de tentar quebrar o ciclo, era enorme. Ergueu o braço e apontou para ele com o seu dedo indicador. Do outro lado, o seu eu passado assustou-se, recuou e quase chocou com um homem que ia a passar.

Lucas chamou por si mesmo várias vezes, mas a voz do presente não alcançava o passado.

Afastou-se do rasgão e este, devagar, muito devagar, começou a fechar-se.

Voltou a olhar para a figueira, fascinado pela sua imponência. Sentiu-a chamar por ele, tentando puxá-lo com veios invisíveis. Não querendo sucumbir aos seus malefícios, decidiu seguir no sentido oposto. Quando deu por si, estava a ir em direcção à árvore. Perplexo, tentou mudar de direcção, só que a figueira parecia estar sempre no seu caminho; tentou parar, mas o seu corpo recusava-se a obedecer-lhe.

A árvore, já de si enorme, ficava maior à medida que ele se aproximava. Nada disso, pensou. A árvore continuava do mesmo tamanho, parecia maior por estar mais próxima. Só isso. De nada lhe valeu essa lógica. Em nada contribuiu para afastar a sensação de pânico que crescia ao ver aqueles ramos estenderem-se na sua direcção que nem falanges.

Era uma ilusão, tornou a repetir. A ilusão envolveu-o, abraçou-o e ergueu-o no ar. Sentiu-se como uma presa apanhada numa teia de aranha.

Tentou debater-se, mas tudo o que conseguiu foi fazer com que os ramos aumentassem um pouco a pressão que exerciam sobre o seu corpo. O esforço fez com que deixasse escapar o ar que tinha nos pulmões. Aflito, voltou a tentar soltar-se; a árvore respondeu apertando-o um pouco mais.

Protuberâncias afiadas trespassaram-no. Tentou gritar, mas da sua boca só jorrou sangue. A dor era atroz; mesmo assim não desistiu. Se não conseguisse arranjar maneira de parar o processo, iria pelo menos acelerá-lo.

Como que percebendo a sua intenção, a árvore apertou-o até ele ficar sem reacção. Os ramos que o envolviam começaram então a soltá-lo. Suspenso por uma perna, Lucas teria suspirado de alívio se pudesse. Estava tudo acabado. Podia finalmente descansar.

Os ramos começaram a balançá-lo lentamente. Embalado e dorido, Lucas fechou os olhos e deixou-se levar. Notou que o balançar ficara mais rápido. Não ligou. O pior já passara.

Num movimento rápido e inesperado, sentiu o corpo embater contra uma superfície irregular e dura. Abriu os olhos e viu o tronco a afastar-se; os ramos tomando balanço para mais um golpe.

Era escusado tentar soltar-se. Desistir também não adiantaria. Não lhe restava outra hipótese senão rezar para que a árvore se cansasse ou que a Morte não tardasse a vir colhê-lo.

Os embates continuaram, indiferentes às suas preces, e a Morte fez-se surda.»

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