A Imagem: Excerto

«Ricardo nunca fora pessoa de se queixar. Mesmo quando havia razões para tal, não o fazia. Luís treinara-o para resolver problemas, não para se queixar deles. E o grande problema com que ele se debatia de momento era o facto de estar confinado a uma cadeira de rodas. Do ponto de vista estratégico era bom para se aproximar do inimigo – as pessoas tendiam a não pressentir grande perigo num homem em cadeira de rodas –, no entanto, a fuga era uma tarefa que podia tornar-se complicada.

Nos últimos sete anos fizera o possível para sair de casa apenas se tivesse mesmo de ser. Luís ensinara-o a procurar sempre uma solução, só não o preparara para reagir quando não havia nenhuma. Adaptar-se à sua nova mobilidade, ou falta dela, não era o problema. O problema eram os outros. Por muito que esforçasse, nunca se habituaria aos olhares de pena que lhe lançavam. Em tempos inspirara terror e medo, agora olhavam para ele com pena, coitadinho; mais valia quem o atropelou tê-lo morto logo de vez.

Tivera a sua oportunidade. Agora era a sua vez.

Aproximou-se da estante e retirou o quinto volume de uma enciclopédia. Apesar da espessura, manuseou o exemplar com uma facilidade que não era suposta. Pousou-o no colo e levou-o até à mesa, onde já estava o seu kit de limpeza, pronto a usar.

Por fora parecia um livro normal; por dentro, o miolo havia recortado e desbastado de modo a conciliar uma Sig-Sauer P245. Não era uma pistola topo de gama, nem sequer era a melhor que tinha, mas era a que tinha usado no seu último trabalho. Fazia todo o sentido que voltasse a utilizá-la para reparar os erros remanescentes desses tempos. Removeu a pistola das páginas escavadas e começou a desmontá-la.

Embora afastado do activo, continuava a tratar o seu material de trabalho como se pudesse vir a usá-lo a qualquer momento. O acto de desmontar uma pistola, limpar com minúcia todos os seus componentes e voltar a montá-la sempre o ajudara a descontrair. A primeira vez que voltou a pegar numa pistola e a realizar todo aquele ritual, perguntou a si mesmo se valeria a pena o esforço. Para quê perder tempo a engraxar sapatos quando não tinha pés para andar?

A resposta finalmente chegara. A descoberta de que o Alexandre Figueira na sua última lista era o mesmo que agora o atormentava deixara-o perturbado quanto ao modo suspeito como Luís agira na altura. Teria Alexandre conseguido manipulá-lo, ou teria havido alguma espécie de conivência entre ambos? Detestava desconfiar do seu mestre, mas se na altura aceitara não dar importância a isso, agora não podia dar-se a esse luxo.

Apesar de tudo, sempre era preferível Alexandre ter forjado a sua morte ao invés de regressar do Além. Se havia vantagens em ser um assassino profissional era receber poucas críticas do seu público-alvo. Os seus leitores podiam queixar-se dos enredos, das personagens, do estilo, mas das suas vítimas tinha zero reclamações. E isso era bom para o ego.

Concluída a limpeza, voltou a montar a pistola. À primeira vista parecia igual, mas ele sabia o quão perigosas poderiam ser as pequenas impurezas que acabara de remover. Colocou as balas no carregador e guardou a arma no bolso interior do casaco. Pegou na enciclopédia e arrumou-a na estante. Estava pronto.»

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