P’la mão de João Dias Martins: DECISÃO

Lembro-me de um tempo em que tudo era mais fácil, um tempo em que não precisava de me preocupar em tomar decisões. Recordo-me desses dias, às vezes com saudade, outras com alívio. Todavia, as saudades que sinto não chegam para desejar um retorno ao passado. Por muito que as memórias boas suplantem as más, teria dificuldades em deixar que a minha vontade fosse subjugada pela vontade de outra pessoa. À semelhança de muitos, não aprecio ser contrariado, muito menos por mim mesmo. No entanto, há alturas em que penso que sou eu quem mais me contraria.
O sonho de muitos autores, eu incluído, é mudar o mundo com a sua escrita. Não importa a dimensão em que esse sonho se traduz, é por ele que o autor busca as palavras certas para contar a sua história.
Não sou um escritor de best-sellers, talvez gostasse se o fosse, mas a verdade é que não sou. Os meus três romances até à data não foram êxitos retumbantes, mas até venderam bem. Tenho a perfeita noção de que não sou um autor Nobel. Um dia talvez me obrigue a trabalhar para isso. Por enquanto, quero apenas contar as histórias que me apetecer sem pretensões de ser laureado.
É sempre com este sentimento em mente que inicio a escrita de um novo livro e este não foi excepção. Quando comecei, pensei que seria apenas mais um. Não “mais um” no sentido pejorativo do termo, somente uma história com princípio, meio e fim. Já havia escrito três romances antes deste e, muito embora todos eles tivessem a sua história por detrás da história, acreditava que não teria grandes surpresas pela frente além daquelas que é suposto encontrar numa jornada criativa.
Estava enganado. Ou talvez estivesse mais certo do que gostaria. É escusado pedirem-me para explicar o que se passou. Suponho que exista uma explicação para o que aconteceu; eu, infelizmente, não a tenho. Só sei aquilo que a comunicação social já noticiou: um conhecido empresário foi encontrado morto em sua casa. O que mais ninguém sabe é que, dias antes, eu havia escrito esse mesmo acontecimento com todos os detalhes, incluindo aqueles de que só a polícia e o responsável pelo crime teriam conhecimento.
Concordaria com quem me dissesse que tudo isto não passa duma estranha coincidência se tivesse sido um acontecimento isolado. Uma semana antes da morte deste empresário, um outro empresário de esquina conheceu o seu fim. Por ser uma figura de menor importância na sociedade – havia quem o considerasse um parasita –, a sua morte passou despercebida. Encontrei o seu cadáver num beco; o mesmo local e as mesmas circunstâncias de uma cena que eu escrevera dias antes.
Cheguei a pensar se não estaria eu a matar aquelas pessoas. Desde que não fosse apanhado, isso até poderia funcionar como manobra de marketing. A certa altura, mais do que pensar, cheguei mesmo a desejar que fosse eu o assassino. Preferia isso a ter alguém a agir em meu nome. Preferia ser eu o assassino e ter assim a hipótese de me poder redimir dos meus actos.
Tenho saudades dos dias em que a minha vontade não era suprema, porque nesses dias estava liberto de pensar nas repercussões das minhas decisões. Podia escrever sobre o fim do mundo sem ter a preocupação de que isso se pudesse tornar realidade. Hoje em dia, tenho que avaliar muito bem as consequências das minhas palavras. Às vezes pergunto-me se estes eventos não aconteceriam mesmo se eu não escrevesse sobre eles. Dou alguma consideração a esta hipótese de ser uma espécie de profeta, apesar de não acreditar muito nela.
Ignoro se serei o único responsável por tudo o que está a acontecer ou uma mera ferramenta nas mãos do Destino. É este poder que vem da palavra escrita, esta capacidade de decidir quem vive e quem morre, que me força a continuar. Mesmo que esta história nunca chegue ao público, eu preciso de saber como é que ela terminará. Se me arrependerei dessa decisão, só o tempo o dirá.
João Dias Martins, protagonista de Um Cappuccino Vermelho

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