P’la mão de Ricardo Neves: PROPÓSITO

Se um dia alguém me perguntasse por que razão é que eu gosto de matar, antes de lhe responder, seria obrigado a fazer uma pequena correcção. Matar não é algo que eu goste de fazer: é algo que eu faço. É preciso que isso fique bem claro. Tenho plena consciência do quanto isto me diferencia da maioria das pessoas, mas tal como elas, não sou alheio às minhas obrigações.
Poderá haver quem questione a moralidade deste meu sentido de responsabilidade. É verdade que matar pessoas não é a mesma coisa que elaborar relatórios ou fazer inventários, mas o princípio subjacente é comum: todos temos os nossos objectivos a cumprir.
Pessoalmente, talvez não me importasse de fazer outra coisa se fosse esse o meu destino. Emprego a palavra “destino”, embora não acredite nisso tanto quanto gostaria. Por um lado até seria bom acreditar que, apesar de ter as mãos sujas de sangue, a responsabilidade pelas minhas acções não recai sobre mim; por outro, aprecio demasiado a liberdade de poder escolher para entregá-la a quem ou ao que seja. Quanto ao destino, no seu sentido mais místico, a minha opinião varia. Acredito que algumas coisas acontecem porque têm de acontecer, outras acontecem porque nós influenciamos o mundo à nossa volta com as nossas palavras e as nossas acções.
Através da minha faceta mais pública também costumo exercer esta influência no mundo. Não sei dizer se tenho mais impacto na vida das pessoas como autor ou como assassino nem isso interessa para agora. Para mim, embora já tivesse algumas mortes no meu currículo antes de escrever o meu primeiro livro, a escrita sempre foi tão importante como a morte. De certo maneira, utilizando um lugar-comum, ambas são faces da mesma moeda. Dois pesos da mesma balança: pela escrita crio, pela morte destruo.
Já por diversas vezes perguntei a mim mesmo: o que faria se não tivesse sido criado desta maneira? Como seria eu se a morte não tivesse feito parte da minha vida desde tenra idade? Aos seis anos de idade, ainda antes de aprender a ler, já sabia disparar uma pistola. É estranho, mas é verdade. Alguns colegas de profissão matam porque são bons no que fazem, outros porque têm prazer nisso; eu mato porque é para isso que fui treinado, mas até que ponto seria diferente se não tivesse recebido esses ensinamentos?
A morte fará parte do que sou ou do que faço?
Tenho pensado muito acerca disto ultimamente. A última lista que me entregaram colocou-me na rota de pessoas que me levaram a questionar aquilo que faço. Desviei-me um pouco, é verdade, mas por vezes, para sabermos se estamos no caminho certo, temos de voltar atrás e tentar perceber como seria se tivéssemos optado de maneira diferente.
Ainda não cheguei a nenhuma conclusão e não acho que vá chegar tão cedo. Tratei da última pessoa da lista ontem – quanto a isso, estou descansado –, mas ainda tenho um livro para acabar de escrever. Pode ser que daqui por uns tempos, quando as coisas estiverem mais calmas, eu volte a perder tempo a pensar na vida.
Ricardo Neves, protagonista de Um Cappuccino Vermelho

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