ACEITAÇÃO: Encontro

ACEITAÇÃO será a próxima história de O MAL HUMANO, dedicado à apresentação do Inspector Hélder Rocha, mas não é só. Além de contar com a presença de vários dos personagens retratados em histórias anteriores, introduz também (de forma breve) o protagonista de uma outra série, de um outro autor que não eu. Espero que gostes.

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À saída do cemitério, Hélder sentiu uma mão no seu ombro e virou-se para trás. As feições não lhe diziam nada, mas os olhos pareciam falar o mesmo que ele sentia: dor.

O desconhecido, que não devia ser assim tão desconhecido, pois estava de mão estendida para o cumprimentar, disse: “Olá, professor.”

Na mente de Hélder surgiu um nome, mas não um rosto. Tinha péssima memória para rostos. “Mário, certo?”

“Marco”, corrigiu o já não tanto desconhecido.

“Estou a reconhecê-lo de algum lado”, disse, ainda que não fosse verdade, “mas não me lembro de onde.”

“Fui seu aluno durante um semestre. Eu e a minha…”

Marco baixou a cabeça e calou-se. Parecia incapaz de continuar. Hélder resolveu aproveitar para pôr fim à conversa. Não lhe apetecia conversar com ninguém, sobretudo com alguém de quem mal sabia o nome.

“Meu caro, peço desculpa, mas tenho de ir. Havemos de nos…”

Marco, deslocado para um mundo só seu, regressou naquele momento para dizer: “Lamento pelo seu colega.”

“Obrigado. Ele era mais do que um colega, era um amigo. Conhecia-o também?”

“A minha… a minha mulher sim. Ele estava a ajudá-la na sua tese de mestrado.”

Marco desviou o olhar para uma comitiva fúnebre à distância.

“Os pais dela nunca foram muito com a minha cara. Agora dou-lhes razão para isso.”

Hélder tinha partido do princípio que Marco estava ali para assistir ao funeral de Simões (não era o único estudante ali presente) — agora percebia que não era esse o caso. Embora afastados da vida docente, Hélder e Ascânio continuavam as suas investigações académicas, publicando o ocasional artigo científico em revistas de antropologia e de psicologia. Nos últimos meses, Simões começara a dar consultas a uma ex-aluna, a propósito do tema para a sua tese de mestrado.

Ela tinha sido uma das vítimas resultantes do acidente. O seu namorado, o único sobrevivente da tragédia, estava perante ele. Observando-o com atenção, Hélder notou: os olhos vermelhos das lágrimas, as marcas da falta de descanso, a expressão de culpa de quando não se é capaz de salvar o mundo.

Era quase como olhar no espelho.

“Os meus sinceros pêsames”, disse para Marco.

Marco olhou para ele, como um aluno olhava para o seu professor, em busca de respostas. Infelizmente, não havia respostas, apenas a inevitável aceitação de que certas coisas são como são.

Caixas personalizadas

O Marco Lopes (aka “Senhor Luvas”) pediu-me que lhe enviasse os episódios mais recentes das séries O MAL HUMANO e INTERSECÇÕES.

O que ele recebeu foi isto:

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Isto são todos os episódios (até à data) de O MAL HUMANO e de INTERSECÇÕES, mais o episódio 0 de O ÚLTIMO, marcadores de livros, postais, etc. (A IMAGEM e contos avulsos foram uma oferta). A caixa é uma edição única, impressa com o nome do leitor.

Preço de venda (com portes incluídos e talvez mais algum brinde): 26,50€

O Natal está aí. Fica a dica.

O Mal Humano: APREENSÃO (Destaque #6)

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Último excerto da semana. Breve contextualização: após ver Dinis disparar contra dois polícias, Fernando vai em auxílio destes. Apesar de tudo o que aconteceu, Fernando tenta chamar o ex-colega (ex-amigo?) à razão. Dinis tenta justificar as suas acções de alguma forma, mas ambos sabem que isso não é fácil.

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Alcancei-os sem interferências e agachei-me junto deles. Tomei-lhes a pulsação. Estava fraca, mas estava lá.

“Eles são bons agentes”, disse o Dinis. “Não tinha interesse nenhum em matá-los.”

A voz dele pareceu-me vir primeiro da esquerda, depois da direita, depois percebi que o vento não seria meu aliado.

“Foste mesmo tu?”

Não precisava de ser mais específico.

“Alguém tinha de o fazer.”

“Não podemos tomar a lei nas nossas mãos.”

“Não se trata de lei.”

Ergui-me e olhei em volta. Ele teimava em não se deixar ver. Parecia que tinha ficado arraçado de ilusionista desde a última vez que o vira.

“A mulher que encontrámos não foi a única. Sabes disso, não sabes?”

Acenei, mesmo que ele não me estivesse a ver.

“Desde que comecei a minha investigação, descobri mais nomes, mais fotos. Mais corpos.” Fez uma pausa antes de continuar. “Ainda achas que ele não merecia?”

“Ele até merecia pior, mas não podemos ser nós a decidir isso. Muito menos a fazer.”

“Se não nós, quem? Quem barrou a investigação?, quem arquivou o caso?, quem tentou destruir provas? É nesses que queres confiar?”

“Tenho de confiar em alguma coisa.”

“Então confia em mim.”

Olhei para os dois polícias inanimados. Podiam não ter sido mortos, mas teriam dores valentes quando acordassem.

“Lamento, mas não posso. Mas tu podes.”

“É tarde demais para voltar atrás.”

O Mal Humano: APREENSÃO (Destaques #4 e #5)

aprens-twt6Curiosidade sobre a minha vida pessoal que poderá não ter qualquer interesse para ti: ontem acordei perto das 11h30. Como tal, foi-me completamente impossível preparar o excerto de ontem. Para atenuar essa falha, hoje há dose dupla.

No primeiro excerto, Fernando e Dinis discutem os motivos do encerramento do caso que estavam a investigar e as implicações internas e externas dessa situação. Apesar de ambos concordarem com o que aconteceu, o modo como cada um exprime a sua desilusão perante isso é bem diferente. Nesta cena são referidos nomes que virão a fazer parte da equipa, e há também Green Sands.

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“Não posso crer que eles mandaram mesmo encerrar o caso”, queixou-se o Dinis.

“Tecnicamente foi arquivado”, disse eu.

Era tudo uma questão de semântica e ele sabia disso tão bem como eu. “Encerrar, suspender, arquivar, é tudo a mesma merda. Se fosse um Zé Ninguém qualquer tinha ido logo parar com os costados à choldra. É o que dá ter amigos nos sítios certos.”

Não podia concordar mais com ele.

Estávamos numa esplanada com vista para o rio. O São Jorge cruzava o Tejo em direcção à capital. Não muito longe de nós, algumas crianças brincavam no esqueleto do velho avião, sob o olhar atento das suas mães.

“Lembras-te quando o André era assim pequeno?”

Acenei. Não tinha sido assim há tanto tempo.

“Como é que eu posso esperar protegê-los, se não sou capaz de fazer o meu trabalho como deve ser?”

Não sabia o que havia de lhe dizer, por isso tentei mudar de assunto.

“Precisamos de mais gente na Brigada.”

“Para quê? Se depois não podemos investigar os casos como é suposto, de que é que serve?”

“Foi um caso, pá!”

“É o suficiente.” Tomou um golo do seu Green Sands. “Começo a achar que isto foi uma má ideia.”

“Queres desistir ao primeiro obstáculo que encontramos? Depois de todo o trabalho que tivemos para pôr isto a funcionar? Depois de tudo o que já conseguimos?”

O Dinis atirou a beata do cigarro para a estrada. Não aprovei o gesto, mas não disse nada.

“Sei lá. Talvez esteja a falar de cabeça quente.”

“Óptimo. Como eu dizia há pouco, precisamos de mais gente.”

“Não desistes, pois não?”

“Fiz uma pequena lista de possíveis candidatos.” Tirei um bloco de notas do bolso. “O primeiro chama-se Hélder…”



 

Neste segundo excerto assistimos ao reencontro de Fernando e Dinis meses após o desaparecimento deste último. Fernando percebe que muita coisa mudou desde a última vez que tinham estado juntos, mas está longe de imaginar até que ponto.

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A estrada na Serra não tinha intersecções para o interior rochoso ou para o abismo profundo, por isso não tardou muito para que avistasse as luzes azuis e vermelhas cintilando por entre a chuva.

Apesar da distância, conseguira alcançá-los com alguma facilidade. Demasiada facilidade, diria até. Era como se tivessem atrasado de propósito. Recusei essa hipótese de tão rebuscada que era. Provavelmente não estavam habituados a conduzir naquelas condições e iam em modo caracol.

Reduzi para os mínimos e liguei as escovas no máximo. Estava mais perto do que havia estado durante toda a viagem, mas confiava que a forte tormenta que caía me escudasse de ser visto.

Continuámos sem novidades a registar por mais alguns quilómetros. Devíamos estar em viagem há mais de meia hora.

Estaria o meu palpite errado?

O carro-patrulha fez pisca para a direita e foi engolido pela Serra. Continuei até ao ponto do desaparecimento e percebi que havia ali um caminho. Vinte metros à frente estava uma pequena casa.

O carro-patrulha parou a poucos metros da porta, os dois agentes saíram e dirigiram-se até lá. Continuei a marcha. Era difícil não me verem. E mesmo que vissem, não fazia diferença. O mal já estava feito.

Mas não me viram. Nenhum deles olhou para trás e eu pude avançar quase até ao carro-patrulha.

Foi então que ele abriu a porta. Ele, o Dinis. Tinha um ar tão lastimável quanto inquietante: barba por fazer, cabelo desgrenhado e o olhar de um homem perdido — um homem assombrado e assustado por algo que reduzira a sua aura de confiança a uma amostra frágil do que era antes.

Não conseguia perceber o que lhe tinha acontecido, mas sabia que aqueles dois polícias a baterem-lhe à porta a meio da noite não justificavam o terror que vivia no seu olhar.

Encostei o carro, saí e avancei em direcção ao trio.

Não sabia se era da chuva, do cansaço, do intenso turbilhão de emoções que fazia com que aquela tormenta parecesse insignificante mas, a cada passo que dava, parecia que a postura do Dinis se alterava de uma maneira difícil de explicar.

Parados à chuva, o único som que ali se ouvia era a água que caía. Quando as vozes ganharam alguma nitidez, o inesperado aconteceu e o Dinis viu-me.

A parte de ser visto não foi inesperada. Já o que ele fez a seguir, foi um balde de água fria do qual eu jamais recuperarei.

Não importava o que ele fizera antes, ou por que é que o fizera — importava o ali e o agora.

O momento em que o Dinis puxou de uma pistola e disparou à queima-roupa sobre os dois agentes foi o momento em que eu percebi que o meu amigo já não existia.