O Mal Humano: um excerto

Directamente do episódio 0.4: Distribuição, para vossa apreciação. 

A passagem por Évora durou mais uma hora, bem aproveitada para um tão desejado almoço – bem farto e bem regado, como mandava a tradição.

“Eu sei o que isso é”, disse Fernando do nada, esperando que ele adivinhasse o quê. Naquele momento isso podia ser uma de muitas coisas: a dor de perder um amigo, a nova pista num caso antigo, a descoberta de que havia pessoas de inocência reconhecida que mesmo assim estavam presas. Até podia ser o tipo de tecido da toalha.

“As coisas são como são”, respondeu. Para perguntas ambíguas…

“Quando o Dinis morreu, não conseguia deixar de me sentir culpado por isso”, disse Fernando, esclarecendo o comentário anterior. 

Dinis tinha sido o seu parceiro durante muitos anos, amigos de longa data, o homem que idealizara a Brigada de Crimes Macabros e um dos seus fundadores. Hélder conhecia-o apenas das histórias que Fernando contava. 

“Eu não me sinto culpado pela morte do Simões.” O que não era bem verdade. “Só não acho justo que ele tenha morrido.”

“A morte nunca é justa.”

Hélder deu um golo no vinho para ajudar a carne a descer. “Eh pá, ao menos que tivesse sido morto a tiro. Sempre havia alguém para apanhar.” Mais uma garfada, mais um golo. “Agora… como é que se prende um coágulo que rebenta? Quando muito um suicídio. Ao menos assim podia chamar-lhe nomes e sentir-me bem com isso.”

“Achas que ele teria razões para cometer suicídio?”

“Ele não cometeu suicídio, nem eu acho que cometeria, mas se cometesse, só em jeito de suposição, aceitaria mais isso, por ser um acto de vontade própria, do que um infortúnio neurológico.”
Custa muito comentar? Não custa, pois não?

O Mal Humano: A última prequela

Quando comecei a desenvolver O Mal Humano, uma das primeiras ideias foi escrever uma série de pequenas histórias, cada uma protagonizada por uma diferente personagem. O objectivo serviria dois propósitos, além de servir para divulgar o projecto: por um lado apresentaria os personagens; por outro, ajudar-me-ia a conhecê-los melhor.

Em relação a esta última parte, confirma-se. Apesar das caracterizações bem detalhadas que desenvolvi antes de começar a escrever cada história, o comportamento deles no papel tende a desviar-se das minhas previsões e concepções de forma inesperada e isso é algo que eu adoro.

Aos poucos, o que eu concebi inicialmente como meros cartões de visita, foi-se tornando algo mais relevante. Não apenas uma parte da história principal, mas uma parte fundamental; um alicerce que suportará toda a estrutura. Não me preocupei quando percebi que isso estava a acontecer. Armado em bom, aceitei o desafio e até resolvi aumentar a parada. Como?

Segundo as estatísticas no site Smashwords, tenho vendido muito no Brasil. Com isso em mente, decidi que uma das protagonistas de O Mal Humano seria uma ex-inspectora federal, vinda do Brasil (até aqui tudo bem), e que a sua prequela decorreria por inteiro no Brasil (também nada contra). O momento em que a situação descambou (e é nesse ponto que eu me encontro) foi quando eu resolvi escrever a história toda em português do Brasil.

O raciocínio (vamos chamar raciocínio para não dizer estupidez) foi este: faz algum sentido uma história passada no Brasil, escrita em português de Portugal, só com os diálogos em brasileiro? Para mim não fazia, nem faz. Mais depressa não contava a história do que a contaria dessa forma. (In)felizmente, esta é uma história que quer ser contada. Na minha mente já a li toda – o difícil está a ser passar isso para o papel. É bem capaz de ser uma das histórias que mais me tem custado a escrever (senão a mais difícil) mas, ao mesmo tempo, tem-me ensinado  muita coisa.

MH (166)

A mais importante é que conseguir falar e ler bem em português do Brasil, ter facilidade com os termos, com a pronúncia, vocabulário, etc., não é o mesmo que ter facilidade em escrever. Achei que o treino intensivo que fiz durante a minha infância à base de Tio Patinhas, Recruta Zero e Turma da Mónica, assim como os anos de contacto directo e diário com brasileiros, me tivessem fornecido as ferramentas necessárias para construir uma história nesse “idioma”. Mais facilmente escrevia esta história em inglês do que em brasileiro.

Tudo isto me leva a duas conclusões. Em primeiro lugar, devia ter pensado melhor antes de me meter nisto. Segundo, os desafios existem para ser ultrapassados. Esta história está a ser difícil de escrever, mas estou confiante que o esforço vai valer a pena.

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Como é que tu lidas com os desafios que a vida te propõe? Deixa a tua resposta nos comentários.

O Mal Humano: Ponto de partida

Quando tento avaliar a minha carreira de escritor, esbarro sempre com uma conclusão desagradável: o que eu fiz nunca será tão bom como aquilo que eu gostaria de vir a fazer. Ou de ter feito. É verdade que já fiz muita coisa (dois romances, vários contos, uma longa-metragem, várias curtas, uma série de televisão, etc.), mas sofro de insatisfação crónica. Além disso, como perceberão ao ler este artigo e este, não é só com as minhas histórias que eu tenho de me preocupar.

Durante os últimos anos tentei partilhar a minha criatividade, desenvolvendo histórias para três entidades distintas. Se por um lado essa decisão atrasou a reescrita do meu terceiro romance, A Voz, por outro permitiu-me descobrir novas histórias e, sobretudo, novas formas de contar histórias, que de outro modo não teria descoberto.

É claro que nem tudo foi positivo. A falta de tempo, por exemplo, bem como outros factores, obrigou-me a pôr A Voz e O Quarto Vazio de parte e a retirar da gaveta um projecto bem mais antigo, O Mal Humano, ao mesmo tempo que assinava contos em nome de Ricardo Neves e de João Dias Martins.

Em cada um tentei explorar géneros diferentes, ideias diferentes, muito embora possam ser apontados vários elementos comuns a todos eles. Graças a estas pequenas histórias tenho aprendido muito sobre mim mesmo, sobretudo sobre a minha maneira de encarar o ofício da escrita. Estou certo que não terei sido o único a beneficiar dessa aprendizagem, mas os outros logo falarão de si. Sei que tenho ainda um longo caminho a percorrer, porém sinto-me em condições de anunciar que o futuro reserva algumas boas surpresas.

Digo isto com (quase) total segurança. Sem anunciar ainda demasiados detalhes, o que se passa é que um dos meus projectos de grande amplitude (O Mal Humano) vai ser reformulado de modo a poder integrar dois projectos assinados por outros dois autores, um por Ricardo Neves, outro por João Dias Martins. A decisão veio na sequência da ideia de fazer o chamado crossover entre os três projectos. Para que tal possa vir a acontecer (e funcionar em pleno), é necessário que decorram os três em simultâneo; o que obriga a atrasar umas coisas e a adiantar outras. É uma medida arriscada, sobretudo para O Mal Humano mas creio que trará benefícios para todos – não apenas “nós os três”, mas também para os nossos leitores. Fiquem atentos.

Enquanto isso podem deixar as vossas perguntas e comentários, tanto aqui, como no Facebook ou mesmo no Goodreads. (Aproveitem também para deixar Likes e adicionar (alguns d)os meus contos às vossas largas estantes.)

O Mal Humano: apelo à comunidade

 

a arca – esboço de capa
 
Caros colegas escritores e também pessoas que lêem. Como decerto saberão, ter entusiasmo por um projecto, embora seja importante, não basta para o seu bom sucesso. Falando por experiência própria, arrisco até dizer que pode até ser prejudicial, no sentido em que impede a autocrítica até ser tarde demais para que esta seja útil. 

A Arca é o primeiro conto do projecto O Mal Humano, e embora não tenha um quinto da dimensão que cada uma das histórias principais terá, é de todas a mais importante, pois encerra nela o início e o fim de toda a saga. Para acabar bem, é preciso começar bem.

Dito isto, vou precisar de outros olhos que não os meus que escarafunchem este conto, apreciando aqueles tópicos do costume (caracterização, enredo, estrutura, prosa, etc). Em troca, além da minha gratidão, terão direito a edições personalizadas de cada uma das histórias que virão a ser publicadas nesta série, quer acompanhem o projecto do princípio ao fim, quer fiquem só pelo início.

Eventuais interessados ou interessadas, fico à vossa espera para fornecer mais detalhes.

Na sombra das palavras [Opinião]

O Livreiro, de Fábio Ventura ***

Quantas histórias existem numa livraria? Perguntem a um livreiro e é provável que ele vos diga: «mais do que há livros».

A ideia de uma mulher feita de papel e de histórias é interessante e, mais importante, está bem executada. Por vezes há um ou outro excesso de informação, mas isso é uma questão mais subjectiva do que técnica. O único ponto menos positivo foi a mudança de cenário no final. É uma explicação que não faz falta. Convém lembrar que nem todas as perguntas precisam de ter resposta.
A Lista de Deus, de João Ventura **

O mundo vai acabar. Um dia. Eventualmente. Nesta história acaba mesmo. A curiosidade do Homem assim provoca. A história em si tem muitas entrelinhas e padece de um problema grave: a falta de espaço para um desenvolvimento mais pleno e eficiente. As situações sucedem-se depressa demais e obrigam o autor a recursos como diálogos demasiado informativos porque não há tempo (ou páginas) para mais. É como mudar de um T4 para um T1 – com jeito cabe lá tudo, mas não é a mesma coisa.

O Panóptico, de David Camarinha **

Uma história com boas frases, excelentes passagens, mas ao mesmo tempo algo confusa. Demasiados elementos para pouco espaço e um uso da pontuação criticável, ainda que ousado. Demonstra bem que, antes de tentar inovar, primeiro convém saber fazer as coisas da forma mais tradicional.

O Labirinto de Papel, de Ângelo Teodoro ***+

Esta espécie de antecâmara do Inferno em ambiente de escritório faz-me lembrar o Inferno de Crowley (Sobrenatural) no tempo em que este reinava no submundo e em vez de chamas e enxofre, o sofrimento era infligido por filas e burocracia. Nesta história espera-se pela morte, perdão, pela amortização. Apreciei sobretudo a sobriedade da narrativa. Não há sobressaltos, não há pressas em chegar ao fim, até porque este não é surpresa nenhuma. O que inquieta mesmo é a antecipação…

Tabula Rasa, de Mário Seabra ****

Quanto tempo terá demorado o autor para escrever uma frase tão magnética como aquela que abre esta história? Se as outras histórias são pratos de 5€ e 10€, Tabula Rasa é uma sobremesa de 20€. Bom ritmo, boa escrita, diálogos reais, personagens bem diferenciados através de poucos traços. Encerra bem esta antologia e compensa tudo o que de menos bom ela teve. É uma história que funciona bem no formato conto, mas o tema e suas repercussões tem potencial para mais, muito mais. Mário, faz-te às teclas.

[Um Cappuccino Vermelho]: um excerto

Numa altura em que assinalo o quarto ano da publicação de Um Cappucino Vermelho resolvi aproveitar para partilhar uma das minhas partes preferidas do livro. O excerto que se segue retrata o primeiro encontro entre Ricardo Neves (o assassino/escritor, ou o escritor/assassino) e Laura Fernandes (a mulher que ele tem de matar/a mulher com quem se envolve). A cena tem particular interesse por ser uma daquelas pontas soltas que acabou por dar origem a uma nova história. Sobre isso, falamos depois. Até lá, (re)leiam isto (e deixem os vossos comentários no fim):

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«Ela sentou-se na sua mesa habitual e pediu também um cappuccino. Ricardo não pôde deixar de reparar nessa coincidência. Sentindo-se observada, olhou em volta e o seu olhar prendeu-se em Ricardo. Sorriu.

Ricardo desviou o olhar como se não fosse nada com ele. Deu o primeiro golo no seu cappuccino ao mesmo tempo que ela. Olhou de esguelha e apercebeu-se de que ela continuava a fitá-lo. Agora era ele o observado. Sentia-se estranho naquele papel.

Foi então que o impensável aconteceu. Algo que Ricardo nem sequer se atrevera a considerar. Ela levantou-se, caminhou até à mesa dele e apontou para a cadeira.

“Posso?”

Ricardo tinha sido apanhado de surpresa, tanto pelo acto como pela pergunta.

“Sim.”

Não sabia o que fazer. Tinha de deixar as coisas seguirem o seu rumo. Neste momento era ela quem controlava a acção.

“O meu nome é Laura.”

O que dizer? Prazer, vou matá-la em breve.

“Ricardo.”

“Costumas vir aqui muitas vezes, não é?”

“É.”

“És escritor, não és?”

Os livros de Ricardo não traziam nenhuma fotografia sua. Era um cuidado que ele tinha para que a sua privacidade não fosse excessivamente violada. Uma situação complicada tornara-se mais complicada.

“Sim. Como é que…?”

“Trabalho numa editora. Tenho os meus contactos aqui e ali, como deves calcular.”

“Imagino. E depois?”

“Gostava que viesses trabalhar comigo.”

“Não.”

“Como é que sabes que não queres se ainda não ouviste a minha proposta?”

“Estou contente onde estou agora.”

“Ouve primeiro e depois respondes. Três livros durante quatro anos. Contrato fixo ou por percentagem a trinta por cento. Que dizes?”

Ricardo teve de pensar. Era uma proposta tentadora. Os prazos eram mais largos e a percentagem era dez por cento a mais do que ele fazia na sua actual editora. Se aceitasse, não teria de se preocupar mais com o livro. Pelo menos, não agora.

Havia a hipótese de existir uma cláusula no contrato que tinha com a sua editora actual que o obrigasse a terminar o livro antes de se mudar. Contudo, mesmo que não houvesse qualquer problema em passar de uma editora para outra, a questão não era essa.

A questão era que ele tinha de matar a pessoa encarregue dessa transferência. Era uma proposta impossível de aceitar. Por muito tentadora que fosse.

“Não posso. Tenho um contrato a cumprir.”

“Não faz mal. Cumpres o teu contrato e depois vens ter comigo. Eu não hei-de morrer até lá, espero.”

“Vamos a ver.”»

No Other Men in Mitchell, de Rose Hartley [Opinião]

Apreciação feita à versão áudio, disponível em podcast, lida por Stefan Rudnicki.

 

Logo às primeiras palavras somos transportados para as planícies extensas e inóspitas da Austrália. As descrições fizeram-me logo pensar no Mad Max, ainda que esta não seja uma história distópica. Será porventura uma história disfuncional, já que o próprio narrador é alguém que não possui uma noção ordenada do tempo cronológico. Os eventos que ele conta ora se sucedem, ora se antecedem; em alguns casos até se cruzam. É necessário algum esforço por parte do leitor para acompanhar todos os passos, mas é um esforço leve e bem recompensado.

A prosa combina na perfeição com a dicção do leitor. A sua voz grave e pesada confere uma intensidade e força que uma voz mais suave não faria. Ouvi este conto enquanto caminhava por Lisboa. Foram 30 minutos que passaram em 10. Esse desfasamento fica a dever-se às várias passagens dignas de registo, tanto pela escrita como pela entoação, das quais destaco duas.

A primeira requer alguma contextualização – nada de muito revelador, apenas que o narrador acaba de despertar de um coma e encontra-se paralisado.

«Time has gone from me, like a flash in the corner of your eye that disappears when you turn your head to look at it. Not that I can turn my head anymore.»

É um parágrafo curto que mais parece uma montanha russa de emoções. A primeira frase, a subida, é inquietante; a segunda, a descida, quase que me fez soltar uma gargalhada. Mas a minha preferida foi sem dúvida aquela que encerra a história:

«I’m sailing over the crests of the narrow highway in the cab of my truck, all alone, nothing but red rocks and dust and blue horizon.»

O que mais me agradou nesta passagem, além da sua construção, foi a forma como o narrador escolheu entoar as palavras finais. É um final de história que (perdoem-me o spoiler) é também um final de vida, mas a maneira como as palavras são proferidas dá a sensação que uma nova história tem início a partir desse ponto.

Podem ler este conto aqui e escutá-lo aqui.

Nos Limites do Infinito – Antologia da Editorial Divergência [Opinião]

Sorte ao jogo, de Ana Luiz
Gostaria de poder só falar bem deste conto – não apenas pelo interesse que tinha por esta antologia ou por ser a história de abertura – mas é complicado. Não é um conto mau, mas é um conto sem tempero. A história desenrola-se sem grandes surpresas; culpa da tagarelice dos personagens que não sabem ser mais discretos. A parte do falar demais podia ser desculpada pelo álcool no sangue, mas a capacidade de elaborar planos já não soa tão credível. Sim, um bêbado pode ter projectos, mas nada de muito complicado.
De resto, faltou um pouco de contenção, de mistério. Faltaram palavras nas entrelinhas e uma maior individualidade dos dois protagonistas (fiquei com a sensação de que só eram dois para que o seu plano pudesse ser revelado ao leitor).
É um conto que, lido uma vez, não obriga a segundas leituras (pior: não estimula) para encontrar pormenores que tivessem passado despercebidos. O que é pena.

A pele de Penélope, de Ângelo Teodoro
Nunca o admitirei publicamente, mas adoro uma história de amor impossível, sobretudo quando é por razões pouco habituais. De um lado, a mulher atraente e misteriosa que se esforça para salvaguardar as devidas distâncias, ainda que por razões pouco usuais; do outro, o homem solitário que descobre ali uma companhia e aos poucos deseja ter mais do que lhe é oferecido. Ambos desejam – ou pelo menos uma parte deseja e a outra acede ao desejo.
É claro que o desejo e a vontade por si sós não chegam para transpôr a barreira que os separa, caso contrário esta seria uma história demasiado rápida e, pior que isso, sem interesse. Não obstante algumas opções, menos boas, sobretudo ao nível de alguma pontuação, é uma história que conseguiu puxar-me até ao final. Um pouco com o auxílio da metafórica cenoura pendurada na vara, crente de que o amor tudo vence. Se não o amor, então o tempo.

Memórias de Teddy, de João Rogaciano
Gostei da base histórica que suporta a história, não tanto do modo como o autor a escolheu explorar. Para mim, ficou bastante aquém do seu potencial. O protagonista/narrador limita-se a contar a sua história de vida que, basicamente, consistiu em matar e trazer desgraça, ainda que inadvertidamente (pelo menos, no início), ou ficar trancafiado e esquecido em arrecadações durante longos períodos de tempo.
A ideia da “maldição” – não será talvez o termo mais adequado, admito, mas serve – é óptima; pecou talvez por excesso. Ao invés de um rodízio de proprietários, mortos e/ou desgraçados, teria sido preferível um único proprietário, sempre em perpétua prosperidade, embora condenado a uma vida solitária e infeliz.
O autor esteve perto disto em determinado momento da história, só que não lhe deu o devido destaque. Creio que, tivesse ele escolhido fazer desse o ponto fulcral da narrativa, o resultado teria sido muito mais interessante.

A Casa da Rua dos Mirtilos, de Ricardo Dias
Três crianças visitam uma casa dita assombrada para encontrar os tais fantasmas que por lá andam. A premissa não é nova, porém não seria a primeira vez que uma ideia antiga e gasta é explorada de forma dinâmica e original. Infelizmente, não foi esse o caso.
O conto parece ter sido para um público na mesma faixa etária que a dos protagonistas – o que em si não tem nada de errado, além de destoar com os restantes contos desta antologia – mas nem isso explica (ou justifica) uma das suas grandes lacunas: o medo. Para uma história de fantasmas, reais ou imaginários, não há medo,  não há sustos, não há nada.
Basicamente, entram na casa para procurar fantasmas, não encontram nada e vão-se embora. Sim, há lá qualquer coisa, mas os personagens permanecem na ignorância, como se não tivessem qualquer intervenção na história. E tiveram?
Não houve antecipação, não houve aquela sensação de nó no estômago. Até mesmo a “grande” revelação no final surge sem gerar qualquer impacto porque o que aconteceu antes não prendeu o suficiente para que esse momento tivesse o efeito que deveria ter.

A colina que olha para ti, de Rui Bastos
Conheço este conto desde a sua primeira versão (pelo menos aquela que o autor apresentou nas sessões do grupo Polícia Bom Polícia Mau), como tal não vou fingir que conhecer o autor e achá-lo um tipo porreiro não teve qualquer influência na minha apreciação desta história. Pode ter tido, não sei.
A verdade é que, nem que fosse um completo desconhecido, ou um conhecido execrável, a escrevê-la a história continuaria a mesma. Em menos de dez páginas somos presenteados com uma narrativa pejada de significado e consequência e isso deve-se muito à teimosia do autor (que deveria ser comum a todos os que escrevem) em querer melhorar sempre de história para história ou, neste caso, de versão para versão.
É uma história que, para mim, funciona como um prato de degustação num serviço gourmet: dose muito pequena, porém cheia de sabor e que nos abre o apetite para mais. Aguardemos pela refeição completa.

Entre Estações, de Yves Robert
Uma leitura na diagonal sugeriu-me que iria gostar desta história. A razão de ser dessa sugestão prende-se com o início do conto que em muito se assemelha com o início de um romance meu. Ideias-base mais ou menos semelhantes, ainda que com resultados bastante diferentes, conforme viria a descobrir a posteriori.
A verdade é que ao ler com atenção este conto fiquei sobretudo indeciso. É uma ideia carregada de potencial, mas que ficou demasiado compactada. Os elementos que aparecem têm razão de ser, só que a sua passagem é tão célere que quase não dá para notar, quanto mais apreciar. Inevitavelmente, isto acaba por afectar (e muito) o ritmo da história. Mais páginas e acredito que o resultado teria sido muito melhor.
Uma última nota: apesar de não ter desgostado do estilo de escrita, confesso que embirrei um pouco com o uso de alguns pontos de exclamação. Em particular no final de um parágrafo onde o protagonista descreve o seu estado de espírito, terminando com a frase: «Em suma, estava deprimido!» Pessoas entusiasmadas com a depressão: aí está um conceito que faz falta no DSM. Fica para uma próxima edição.

 

Como ser um escritotário

photo_1Sonhas em um dia escrever um livro mas não achas que isso é possível? Graças ao novo Curso Intensivo de Escrita sem Critério, também tu poderás concretizar esse sonho e tornar-te um escritotário!

Mas calma!

Antes de mais, verifica se é mesmo isso que queres. Às vezes há pessoas que que acham que querem uma coisa e depois vai na volta afinal não querem. Consegues ter um pensamento lógico e  coordenado? Consegues topar quando te estão a enfiar o barrete? Sim? Então este curso não é para ti.

Queres mesmo participar? Óptimo. Tens um prego à mão? E um martelo já agora? Muito bem. Coloca-te junto a um espelho, posiciona o prego sete a oito dedos acima da orelha (varia consoante os casos, podes ter de experimentar várias vezes até acertar) e dá uma martelada. Não é preciso muita força. A ideia é só furar o crânio, não é ficar com o prego lá enfiado. Retira o prego, inclina a cabeça e deixa escorrer até ficar tantã, põe um penso. Agora sim, podes participar neste fabuloso concurso que se divide em três simples fases:

FASE 1: CRIAÇÃO
Escreve. Não importa o quê. Pode ser o teu nome durante 100 páginas, uma lista de todos os objectos que compraste; pode até ser uma história a sério (se quiseres perder tempo com isso).

FASE 2: AVALIAÇÃO
Envia o teu texto para a nossa equipa de especialistas. O texto deve vir em anexo e não no corpo da mensagem. Não há problema se te esqueceres de colocar o anexo porque ninguém te vai dizer se o texto está bom ou bosta porque o que interessa é participar, não é verdade? É claro que podes sempre pagar um pouco mais e ter direito a uma opinião vaga e cheia de lugares comuns, copiada de um sítio qualquer, que com sorte talvez se adapte ao teu texto.

FASE 3: PUBLICAÇÃO
Dos vários participantes vamos escolher todos para serem publicados. Não porque sejam todos bons, mas porque todos merecem a oportunidade de serem enganados, perdão, agraciados, com a publicação de uma obra. Basta facultarem acesso directo à vossa conta bancária e serão autores famosos de um certo dia para uma eventual noite.

Fica agora com o depoimento de alguns ex-participantes que ainda hoje escrevem.

«Aaaaaaaaaaaartur.»
— Artur, autor do livro “Aaaaaaaartur: um nome para cem páginas”

«Eu achava que não sei escrever, agora sei que não.»
— Salomão Pires, autor do livro “Sabonte”
(Nota do editor: era para ser “Sabonete”, mas enganaram-se na gráfica.)

«Escrever não é só colocar palavras na folha, mas também pode ser só isso.»
— Nicole Martins de Albuquerque e Pinto, autora do livro “EU”

Torna-te também um escritotário e realiza o teu sonho! Descobre como participar através do

A IMAGEM – um excerto

Aqui fica mais um excerto do meu segundo romance, A IMAGEM. Podem adquirir uma cópia grátis em formato electrónico em https://www.smashwords.com/books/view/490073 ou em papel, através do email joel.gomes@gmail.com.

«Luís não ficou triste por ser levado para longe da sua família. A vida tornara-o demasiado apático para se importar com essas coisas. Lembrava-se de ter pensado quão diferentes as coisas iriam ser dali por diante.

O homem que o levara, e que o treinaria até ele estar pronto para treinar outros, era de poucas palavras e de menos paciência ainda. Não sabia que idade teria, mas palpitava que fosse mais novo que o seu pai, talvez uns dez anos.

A imagem do pai de olhos arregalados, tossindo sangue, antes de tombar para sempre, era das melhores recordações que possuía. Por todas as vezes que ele lhe pusera a mão em cima – e não tinham sido poucas – e que sonhara retribuir à altura. Se a sua vida nova conseguisse prepará-lo para que mais ninguém lhe tocasse, mal podia esperar para começar.

Cedo descobriu que, embora cheia de propósito, a sua nova vida não seria isenta de dor. O homem que ele aprenderia a chamar Mestre, apesar de estar sempre pronto a ajudá-lo, a estimulá-lo, tinha pouca paciência para desempenhos menos que perfeitos.

Durante o dia exercitava o corpo e era instruído no manuseio de armas e artes marciais; à noite recebia a instrução que nunca tinha tido. Apesar de nunca ter posto os pés numa escola, depressa aprendeu a ler e a fazer contas. Era um aluno dotado e esforçado e isso notava-se no seu rápido progresso.

O seu treino durou até completar dezoito anos. Não dezoito anos de vida, mas dezoito anos desde a noite em que a sua vida havia recomeçado. Nesse dia, recebeu apenas uma fotografia com um nome no verso.

Não seria o primeiro alvo a abater, mas seria o primeiro cujas etapas do processo de eliminação ficariam todas a seu cargo. Até então, limitara-se a executar o golpe, agora teria de planear o ataque, antecipar imprevistos e activar contingências.

O alvo era um banqueiro que cometera o erro de tentar enganar o Grupo, desviando fundos para uma conta fantasma. Luís não percebia muito desses negócios, mas sabia que a remoção daquele indivíduo seria suficiente para dissuadir futuras tentações.

Apesar do sucesso, a sua integração com os membros de igual escalão continuou tão complicada quanto antes. Boa parte deles partilhava algo que ele não podia sequer sonhar ter: um passado comum.

Como descendentes directos de outros membros, desde o nascimento que as suas vidas tinham um propósito inerente – um rumo. Para eles não importava o quanto ele se esforçava: Luís seria sempre olhado como um intruso.»

 

Gostaram do que leram, ou nem por isso? Digam de vossa justiça.